
INEXPLICVEL MAGIA

Digitalizao: Nina
Reviso: Bruna

Ele nascera para ser pai!

 Voc pode contar comigo  foi isso que Richard McNeal sussurrou ao ouvido da mulher ferida.
E mais:
	No se preocupe. Prometo que tomarei conta de seu filho, como se ele fosse meu. No permitirei que nada de mal lhe acontea. Voc tem minha palavra.  o mnimo que posso fazer, depois de...  Richard no concluiu a frase. Tambm, como faz-lo? Como explicar, em poucos segundos, a uma pessoa quase inconsciente, a dor que o dilacerava havia trs anos?
	Acredito em voc  foi tudo o que Kate Burnett pde dizer antes de perder os sentidos.
Richard duvidou do que tinha acabado de ouvir. Aquela mulher havia realmente dito que acreditava nele? No era possvel...!




Copyright  2001 by Martha Shields
Originalmente publicado em 2001 pela Silhouette Books, diviso da Harlequin Enterprises Limited.
Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reproduo total ou parcial, sob qualquer fornia.
Esta edio  publicada atravs de contrato com a Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canad.
Silhouette, Silhouette Desire e colofo so marcas registradas da Harlequin Enterprises B.V.
Todos os personagens desta obra so fictcios.
Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas ter sido mera coincidncia.
Ttulo original: Born to be a dad
Traduo: Nogueira Biller
Editora e Publisher: Janice Florido
Editor: Fernanda Cardoso
Chefe de Arte: Ana Suely Dobn
Paginao: Dany Editora Ltda.
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Rua Paes Leme, 524 - 10 andar CEP: 05424-010 - So Paulo - Brasil
Copyright para a lngua portuguesa: 2001 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Impresso e acabamento:
DONNELLEY COCHRANE GRFICA E EDITORA BRASIL LTDA.
DIVISO CRCULO - Fone (55 11) 4191-4633
 

CAPTULO I

Richard MacNeal tinha acabado de fazer uma curva, quando deparou com uma cena assustadora...
Pisando fundo no freio do jipe, ele girou o volante violentamente para a esquerda. S assim conseguiu se desviar do garoto que vinha em sentido contrrio. A rua tinha duas mos e Richard estava na faixa correta, mas o menino no.
Por um triz, o pior no acontecera.
Um profundo suspiro brotou do peito de Richard que, desligando o motor e soltando as mos trmulas do volante, sentiu-se invadido por uma sensao de alvio.
Seu corao pulsava to rpido, que chegava a causar-lhe falta de ar.
Richard fechou os olhos por um instante. Estava exausto, simplesmente exausto. Tinha acabado de sair da Data Enterprises, a empresa de informtica que fundara alguns anos atrs.
"Preciso trabalhar menos", Richard pensou, abrindo os olhos e passando a mo pelos cabelos negros.
Felizmente, o stress ainda no estava prejudicando seus reflexos. A maior prova disso tinha acontecido alguns segundos atrs. Mas, mesmo assim, no convinha abusar do cansao.
Fazia uma semana que ele vinha trabalhando cerca de doze horas por dia, s vezes mais. Isso acabaria lhe causando problemas, tais como um esgotamento nervoso, ou algo ainda pior.
Prometendo a si mesmo que dali por diante deixaria de se sacrificar tanto, Richard viu, pelo espelho retrovisor, o garoto se afastando com a bicicleta. Parecia muito assustado e pedalava apressadamente, como se quisesse fugir dali.
 Aquele danadinho bem que merecia umas palmadas, pelo susto que lhe deu  algum comentou.
Richard voltou-se na direo da voz e viu uma senhora robusta, na calada. Sorrindo, declarou:
 S de ter evitado o desastre, j me sinto satisfeito.
A senhora sorriu de volta, enquanto assentia com um gesto de cabea.
Richard acenou-lhe em despedida. Estava mais calmo e decidiu ir embora.
Aquela rua no era exatamente uma das mais movimentadas de Memphis.
Mas Richard estava muito perto de uma curva e no convinha abusar.
Afinal, era hora do rush e os motoristas tinham pressa de chegar em casa, depois de um longo dia de trabalho.
Girando a chave na ignio do jipe, Richard acionou o motor. E ento o mundo pareceu desmoronar, s suas costas...
Ouviu um rudo e sentiu um choque que o projetou para frente. O cinto de segurana o manteve a salvo.
Pelo espelho retrovisor, Richard viu o Escort que tinha acabado de se chocar contra o pra-choque de seu jipe. Nos segundos de infinito horror, ele conseguiu divisar o rosto em pnico de uma mulher ainda jovem.
Tudo durou apenas uma frao de segundo. Richard mal podia crer que aquilo estivesse acontecendo de verdade.
Com gestos trmulos, ele abriu a porta do jipe e saltou... para deparar com uma viso ainda mais aterradora: outro veculo acabava de dobrar a curva. Tratava-se de uma caminhonete cor de vinho. Seu motorista conseguiu desviar-se para a esquerda, mas mesmo assim atingiu o Escort. Pego de lado, o pequeno veculo rodopiou como um pio e foi se chocar contra um poste.
 Santo Deus!  Richard exclamou, estarrecido, enquanto suas pernas fraquejavam.
Um grupo de pessoas se formava, na calada.
 Algum precisa ir at aquela curva, para alertar os outros motoristas!  Richard quase gritou, numa voz que soou-lhe estranha, como se no lhe pertencesse.
 Ns cuidaremos disso  um rapaz prontificou-se. Junto com dois outros, correu para a esquina.  Algum arranje um tringulo!  pediu, voltando-se por um instante.
O motorista da caminhonete havia acabado de descer do veculo. Estava to plido quanto Richard.
	Eu... no pude evitar. O senhor mesmo viu...
	Claro  Richard assentiu, dizendo a si mesmo que no podia se entregar ao nervosismo. Algum precisava tomar conta da situao e, ao que tudo indicava, esse algum era ele.
	O tringulo!  o rapaz repetiu.
	Eu tenho um  Richard voltou ao jipe. Pegou o tringulo e entregou-o ao motorista da caminhonete, que correu para lev-lo ao rapaz.
Como num pesadelo, Richard aproximou-se do Escort.
 melhor no mexer em nada, senhor!  disse a mulher de meia-idade.  Algum j se encarregou de chamar uma ambulncia.
Richard olhou-a por um momento. Mas continuou andando em direo ao Escort.
 J entreguei o tringulo  o motorista da caminhonete anunciou, alcanando-o.
Richard no respondeu. Seus olhos estavam fixos no Escort. Aquela cena lhe parecia familiar, horrivelmente familiar, alis...
A lembrana de outro acidente, fatal, ocorrido trs anos antes, estampou-se na mente de Richard com uma nitidez cruel. Naquela trgica ocasio, ele perdera a esposa e o filho que estava por nascer.
 No!  Richard exclamou, num tom abafado.  Isso no pode estar ocorrendo... De novo, no.
A frente do Escort estava parcialmente cravada contra o poste. Pela janela do veculo, Richard podia ver uma cascata de cabelos loiros, cada sobre o volante.
Apressando o passo, ele tentou abrir a porta, mas no conseguiu.
 Senhor...  o motorista da caminhonete alertou-o  talvez no seja prudente fazer isso. s vezes as pessoas, munidas de boa f, tentam ajudar os feridos. Mas acabam at piorando seu estado, ao mud-los de posio. Afinal, sempre existe o risco de se provocar uma hemorragia interna.
Richard voltou-se para o homem baixo e calvo, muito trmulo, que tocava-lhe o brao.
	Escute, eu no vou ficar aqui, esperando o socorro chegar  disse, simplesmente.  Esta mulher est ferida, talvez inconsciente.
	Mas  por isso mesmo que...
O homem no concluiu a frase. Um grito veio do interior do Escort, seguido de um choro infantil.
Minha nossa!  Richard concluiu, aterrado.  H uma criana l dentro! Ajude-me, por favor!
Precipitando-se, Richard tentou abrir a porta traseira do Escort. Sentado numa cadeira prpria para transportar crianas, no banco de trs do veculo, um garotinho chorava desesperadamente.
A porta no cedia aos esforos de Richard. Aquela altura, o motorista da caminhonete tambm se empenhava em abri-la.
	No adianta  o homem disse, por fim.  Esta porta est travada. Teremos de quebrar o vidro.
	No  Richard discordou, aflito.  Se o quebrarmos, poderemos atingir o garotinho com algum estilhao. Vamos tentar a outra porta.
	Tudo bem, mas, se no der certo, adotaremos minha idia. Tenho ferramentas, na caminhonete. Posso quebrar o vidro com todo o cuidado, para no ferir a criana.
Richard no respondeu. Contornando o veculo, forou a porta traseira, do outro lado. Para seu alvio, ela acabou cedendo.
	Graas a Deus!  ele exclamou, entrando no Escort.
	O garotinho est apavorado  disse o motorista da caminhonete.  Portanto, no estranhe se ele rejeitar sua ajuda. Tente acalm-lo, antes de qualquer outra coisa.
Richard, porm, no o ouvia.
"Ela  uma me dedicada e cuidadosa", pensou, lanando um olhar cheio de pena  mulher cada sobre o volante. Ento concentrou-se no garotinho, que se debatia na cadeira.
 Acalme-se, meu anjo.  Richard tentava tranquiliz-lo, enquanto o tomava nos braos.  Tudo ficar bem. Tudo ter de ficar bem...
Para sua surpresa, o garotinho abraou-o com fora, como se ele fosse um porto seguro, em meio a uma terrvel tempestade.
Richard aconchegou-o contra o peito, enquanto tentava confort-lo com palavras doces.
Por alguns instantes, a criana se calou. Mas logo em seguida, como se casse na terrvel realidade daquele momento, sofreu uma nova crise de choro.
	Calma, querido...  dizia Richard, que fazia um incrvel esforo para manter o controle.  Tudo ficar bem. Como voc se chama?
	Jo...  o menino balbuciou, entre as lgrimas.
 Jonathan.
	Certo, Jonathan. Meu nome  Richard.
	Voc me ajudou...
	Sim, meu bem  Richard assentiu, comovido.
	Ajude minha mame, agora.
O motorista da caminhonete tirou a jaqueta que usava e cobriu o garotinho. Lanando um olhar preocupado a Richard, aconselhou:
	No toque na mulher, ao menos por enquanto. Vamos esperar pelo pessoal da ambulncia.
	 a coisa mais sensata a se fazer  Richard concordou.
	Voc tem que ajudar mame  Jonathan insistiu.
	Mas acho que vou abandonar a sensatez, sabe?  Richard declarou, tomando uma sbita deciso. Acariciando os cabelos do garotinho, perguntou:  Escute, Jonathan, voc ficaria com este senhor, enquanto vejo o que posso fazer por sua mame?
 Sim. Voc precisa tirar mame de l.
Richard concordava plenamente com o garotinho. No podia ficar ali, parado, sem tomar uma atitude.
Venha, filho.  O motorista da caminhonete tomou o pequeno Jonathan nos braos.
 Leve-o daqui  Richard pediu, em voz baixa.
Certo, senhor  o motorista assentiu, afastando-se.
Richard voltou a entrar no veculo. Estremeceu da cabea aos ps, ao ver que a mulher j no se encontrava cada sobre o volante. De algum modo havia conseguido soltar o cinto de segurana. Mas desabara sobre o banco dos passageiros.
Richard no queria, mas chegou a cogitar sobre o pior. Ela teria se soltado, num ltimo esforo, para... morrer?
 No.  Ele meneou bruscamente a cabea, enquanto inclinava-se em sua direo.  Isso no pode acontecer.
A mulher era jovem e tinha uma compleio delicada, Richard observou, penalizado. No podia ver-lhe os traos do rosto, pois este estava coberto por uma cabeleira loira, ondulada.
Afastando-lhe delicadamente,os cabelos, ele contemplou-a. O rosto da jovem mulher era belo, mas estava plido como cera. Alm do mais, ela tinha ferimentos nas mos, braos e em uma perna.
 Escute...  Richard disse, baixinho.  Voc precisa viver.  E repetiu, num tom mais alto:  Precisa viver, entende? Para criar seu filho... Ele  to pequeno, to frgil. Por favor, no faa como Stacy. No morra, moa.
Fechando os olhos por um instante, ele concluiu, mentalmente:
"Devo ter enlouquecido... Em vez de me certificar de que esta mulher est viva, fico falando com ela... Como se pudesse me ouvir!"
O fato era que ele sentia medo da verdade...
Se a mulher estivesse apenas inconsciente, seria um alvio. Mas se houvesse morrido...
Richard nem ousava concluir esse pensamento. Se havia entrado naquele carro, contrariando todas as regras do bom senso e at mesmo a lei, ento era melhor tomar uma providncia. E rpido!
Uma bolsa de couro, que certamente pertencia  mulher, estava no banco de trs. Richard pegou-a e, remexendo entre os vrios objetos ali guardados, encontrou um pequeno espelho. Limpou-o com a manga da camisa e aproximou-o da boca entreaberta da mulher, por onde escorria um filete de sangue.
Bem, esse filete podia ser resultado de um ferimento leve e no de algo mais grave, Richard disse para si. Precisava acreditar nisso, para no perder totalmente a razo.
Sua mo tremia, mas Richard pouco se importava com isso. Tudo o que desejava era que o espelho ficasse embaado. Isso significaria que a mulher estava respirando. Isso significaria vida!
Mais do que um leve sinal, Richard teve uma inegvel confirmao: a mulher remexeu-se, enquanto pronunciava algo ininteligvel.
Ele suspirou, sorriu, quis gritar de felicidade. A vida ainda pulsava naquele cerne ferido, frgil.
Uma onda de esperana inundou o corao de Richard.
 Voc sobreviveu, moa!  exclamou, aliviado.  Vai continuar cuidando de seu filho, vai dar seguimento  vida!
De sbito, uma nuvem sombria veio turvar aquele momento. Se a mulher estava inconsciente, era porque havia sofrido algum tipo de traumatismo. E isso poderia ser grave, talvez fatal.
 No ser  Richard sentenciou, baixinho, recusando-se a considerar aquela terrvel possibilidade.  Voc vai se salvar, moa. E daqui a pouco tempo estar totalmente recuperada.
Outra probabilidade, bem mais animadora, veio-lhe  mente: se a mulher havia se mexido e at falado, era porque seus sinais vitais estavam respondendo... Talvez agora ela pudesse ouvi-lo, Richard pensou, fitando-a com intensidade, buscando no rosto de cera a confirmao daquela esperana.
A mulher, porm, continuava com os olhos fechados. E parecia respirar de maneira mais fraca.
Recusando-se mais uma vez a considerar o pior, Richard voltou a falar, agora com os lbios bem prximos:
 Ol, moa... Ser que voc pode me ouvir? Se pudesse me dar apenas um sinal...
Um longo momento se passou.
Do lado de fora do veculo, a poucos metros de distncia, havia uma terrvel agitao.
Outras pessoas haviam se juntado ao pequeno grupo na calada.
A moradora de uma casa prxima havia trazido gua para o motorista da caminhonete e para o pequeno Jonathan.
Na esquina, j no eram apenas trs, mas vrios os rapazes que se encarregavam de parar os motoristas, evitando novos acidentes.
O socorro se aproximava. A meia distncia, podia-se ouvir a sirene de uma viatura policial, seguida por uma ambulncia.
Alguns curiosos, mais ousados, chegaram bem perto do Escort.
Richard, porm, no dava a menor importncia a todo aquele movimento. S tinha olhos para a jovem mulher, que o fazia lembrar-se de outra: Stacy, sua esposa, falecida trs anos atrs, poucas semanas antes de dar  luz.
Richard no queria, no podia pensar no desfecho daquele outro acidente, do qual se julgava culpado. No era possvel que o destino lhe desse mais esse golpe. Ele simplesmente no suportaria.
 Eu...  a mulher balbuciou.
Invadido por um misto de expectativa e euforia, ele perguntou:
	Voc... disse alguma coisa?
	Eu...  a mulher repetiu, fracamente.
	Voc conseguiu falar! Isso significa que vai ficar bem... Muito bem.
	Meu filho... Jonathan...  ela voltou a balbuciar, aps alguns instantes.  Por favor... ajude-o.
	Jonathan est bem  Richard assegurou, pronunciando devagar cada palavra.  J o tirei do carro. Ele no sofreu nada.
Ela no respondeu. E Richard indagou:
 Voc... me entende?
Mas a mulher parecia ter cado novamente na inconscincia.
 No importa...  Com o corao repleto de esperanas, ele afirmou:  Voc vai viver.
Kate Burnett sentiu que mergulhava num poo escuro, silencioso e frio. Naquele estranho lugar, no havia dor. Alis, no havia nada.
E Kate caa... Caa lentamente nesse poo, livrando-se da dor que a atormentava, pouco antes.
Se pudesse abandonar-se de vez, se pudesse no reagir, apenas deixar-se levar naquele caminho sem volta...
De sbito, Kate compreendeu que no devia agir assim. Tinha de fugir daquele poo escuro. Pois sua hora ainda no havia chegado. Era preciso voltar... no exatamente por ela, mas por Jonathan.
Assim, Kate decidiu lutar para sair do nada. Por um instante, pensou que no fosse conseguir. Mas ento a dor na cabea e em alguma parte do lado esquerdo do corpo voltou, com redobrada intensidade. E Kate compreendeu que ainda estava viva.
Jonathan no tinha ningum no mundo, a no ser ela. E o pobrezinho era to pequeno, to desprotegido.
Decididamente, ela no podia abandon-lo.
Ambos eram estranhos, numa cidade ainda estranha, que Kate pretendia transformar num lar.
Mas mesmo que tivesse algum amigo ou parente, em Memphis, que pudesse cuidar de Jonathan... Bem, ela no pediria esse favor.
J fazia muito tempo que no pedia nada a ningum. Desde que aprendera a cuidar de si mesma, decidira contar apenas com sua prpria fora e determinao.
Um favor custava muito caro. Alm do mais, feria o orgulho de quem pedia... A menos que esse favor fosse prestado com todo o corao, coisa rarssima de acontecer.
Uma srie de rudos e movimentos alertou Kate de que ela estava, realmente, do lado da vida... Mas a dor dilacerante atingiu um limite insuportvel. E Kate sentiu-se novamente tentada a cair naquele poo onde no existia barulho, nem gestos, nem sofrimento... nada.
Mas havia Jonathan. E ela precisava viver.
Agora Kate podia ouvir rudos mais prximos, inclusive uma espcie de sirene que no parava de soar. E tambm comentrios, vozes que gritavam ordens ou falavam ao mesmo tempo.
Mas, acima de tudo, uma nica voz se distinguia. Uma voz profunda, suave, muito prxima, que parecia falar diretamente a sua alma.
Kate estava to certa disso quanto de que era preciso viver.
E de algum modo ela elegeu aquela voz, para ser seu elo com o mundo ao qual era preciso retornar, ao qual Jonathan pertencia.
Kate tentou um contato com esse mundo. A dor a impedia de perceber, com clareza, o que estava acontecendo ao redor. Mas A Voz continuava ali, a seu lado, firme, constante como o pulsar de um doce corao.
 A ambulncia j chegou  disse A Voz.  Jonathan no est ferido, mas voc precisa de cuidados...
Kate lutou como nunca, para reagir quelas palavras maravilhosas.
Jonathan no estava ferido!
Poderia haver uma notcia mais fantstica?
Kate concentrou todas as foras que ainda possua, para manifestar-se. Precisava responder  Voz, que continuava a confort-la.
	Ela abriu os olhos!  Richard constatou, tomado por uma profunda emoo.
	Queira nos dar licena, sim?  um enfermeiro ordenou.  Temos que retirar a moa do carro.
	Um momento  Richard pediu.  Preciso apenas de um momento e voc no vai me negar isto.  Com o rosto quase colado ao da mulher, disse:  Voc deu um novo sinal de vida, moa. At murmurou algumas coisas. Ser que poderia me dizer o seu nome?
	Isso no ser problema  outro enfermeiro interveio.  Saberemos o nome dela, quando olharmos seus documentos. Agora, faa o favor de nos deixar trabalhar, sim?
	Kate...  ela sussurrou.
	Kate...  Richard repetiu.  Voc est indo muito bem, sabe?
	Jonathan...  ela murmurou, lentamente.
	Ele est timo, Kate. No sofreu ferimento algum  Profundamente comovido, Richard sentenciou.  E voc logo ficar boa.
	Jonathan... timo  ela balbuciou.
	Sim, querida.  Richard sabia que s teria mais alguns instantes. Os enfermeiros comeavam a impacientar-se.  H algum que eu deva avisar, sobre o acidente? Talvez o pai de Jonathan?
 No...  ela respondeu, num tom quase inaudvel. 
Richard s a ouviu porque estava com o ouvido praticamente colado a seus lbios.
 O pai... de Jonathan... foi embora.
 E no h mais ningum que eu deva contatar?
Agora Kate sabia que estava, definitivamente, do lado da vida, do lado ao qual Jonathan e A Voz pertenciam.
A dor que sentia era to forte, que ela temia perder novamente a conscincia. Mas no podia, no antes de pedir um ltimo favor  Voz.
Justo ela, que tinha por princpio no aceitar nada de ningum... Agora estava necessitando desesperadamente da caridade alheia.
Mas A Voz no era alheia. A Voz era sua amiga, seu elo com a vida. Havia acabado de salv-la do poo escuro, onde s o nada imperava.
 A ambulncia est aqui  A Voz informou-a. Kate a ouvia mais claramente, agora, em meio  dor torturante.
Os mdicos cuidaro de voc.
	Jonathan...  ela pediu.  Cuide... de Jonathan... para mim.
	No se preocupe. Prometo que tomarei conta de seu filho, como se ele fosse meu. E no permitirei que nada de mal lhe acontea. Voc tem minha palavra.  o mnimo que posso fazer, depois de...  Richard no concluiu a frase. Tambm, como explicar, em poucos segundos, a uma pessoa quase inconsciente, a dor que o dilacerava havia trs anos?
	Acredito em voc.
Richard chegou a duvidar do que tinha acabado de ouvir.
"Nos ltimos anos, nem eu mesmo acredito em mim", pensou, experimentando uma espcie de alvio, um alento indescritvel em seu corao sofrido.
	Agora chega  o enfermeiro tocou-lhe o ombro.  No podemos esperar mais.
	E nem  preciso.  Richard contemplou a plida face da mulher, que voltava a fechar os olhos.  Acho que ela ouviu o que tanto desejava...
Kate j no tinha conscincia de nada. Mas uma parte de seu ser estava em paz. Jonathan ficaria em boas mos. Ele no corria perigo. No seria entregue a uma instituio de caridade, nem aos cuidados de gente estranha.
A Voz, ou o que quer que isso significasse, havia lhe dado uma garantia: a de que Jonathan ficaria bem.
Agora sim, ela poderia descansar, fugir um pouco da dor que ultrapassava todos os limites. Pois havia ganho duas certezas: a de que viveria e a de que reencontraria Jonathan, so e salvo.
O que mais precisava, agora?
Nada... A no ser, talvez, descansar.

CAPTULO II

Richard MacNeal parou junto  janela de vidro da sala nmero sete, da unidade de terapia intensiva do Baptist Hospital.
Kate Burnett estava deitada num leito prximo  janela. Seu rosto de traos delicados j havia sido devidamente limpo pelas enfermeiras. Mas continuava plido, como se a vida ameaasse abandon-lo. Os olhos, que por um instante ele pudera contemplar, estavam fechados, com profundos sulcos escuros ao redor.
Atravs de um tubo de soro ligado  veia, Kate recebia medicamentos.
Um lenol a cobria at a altura do pescoo. Por isso, Richard no podia ver-lhe os outros ferimentos, nem tampouco calcular sua gravidade.
Ela teria sofrido fraturas? Luxaes, talvez? Escoriaes, com toda a certeza.
Assaltado por essa srie de perguntas, Richard suspirou profundamente.
Kate parecia to frgil naquele leito, com os cabelos loiros puxados para um lado, emoldurando-lhe o rosto sem cor...
Que tipo de mulher ela seria? O que pensava, o que sentia, quais eram seus planos para o futuro? Em que circunstncias tivera o filho?
Richard lembrava-se de Kate haver dito que o pai do pequeno Jonathan se fora... Para onde? Teria partido antes que ela desse  luz? Teria sido capaz de abandon-la, grvida, negando-lhe qualquer apoio? Ou talvez houvesse morrido?
Richard meneou a cabea, em uma tentativa de afastar essas inteis cogitaes.
De nada adiantava pensar assim.
Algum dia, e ele esperava que esse dia chegasse em breve, acabaria sabendo tudo sobre Kate Burnett.
Os mdicos o haviam informado de que ela estava em estado de choque. Por isso, tinham decidido mant-la na unidade de terapia intensiva, em observao. Havia tambm a possibilidade de hemorragias internas, o que aumentava seu risco de vida.
Os olhos de Richard continuavam fixos em Kate Burnett, mas sua mente agora o levava para longe dali.
Era mesmo impossvel no pensar em Stacy, sua esposa, que morrera num leito como aquele, numa unidade de terapia intensiva, trs anos atrs, poucas semanas antes de dar  luz.
Uma profunda angstia se instalou no corao, j to sofrido, de Richard.
Sabia-se culpado pelo que ocorrera a Stacy e ao beb, que nem chegara a nascer.
No caso de Kate, se ele no houvesse ficado parado na rua, depois de quase atropelar o garoto de bicicleta, ela no teria se chocado contra seu jipe. E a essa hora estaria em casa, viva, com o filho.
"A culpa foi minha", Richard concluiu, encolhendo os ombros, como se no suportasse o peso de tanto remorso. "Mais uma vez, a culpa foi minha."
Estava desgastado, tanto fsica quanto emocionalmente. Fazia j quatro horas que havia chegado ao hospital, com o pequeno Jonathan, que agora dormia na sala de espera aos cuidados de uma enfermeira.
Felizmente o garotinho no sofrera nada, com o choque.
Se isso houvesse acontecido, Richard estaria se sentindo ainda pior.
Se bem que era difcil imaginar-se num estado pior do que aquele em que se encontrava.
A situao de Kate era parecida demais com a de Stacy. Essa constatao o arrasava.
No que Kate e Stacy fossem parecidas entre si. Ao contrrio: Stacy era uma mulher alta, magra e elegante. Possua cabelos negros, lisos, curtos. E olhos castanhos que pareciam ver atravs da alma...
J Kate era de compleio delicada, com cabelos loiros suavemente ondulados e olhos verdes.
Talvez a grande semelhana entre ambas fosse o modo de olhar, Richard pensou. Pois lembrava-se com clareza da luz que habitava os olhos verdes de Kate Burnett, no momento em que ela lhe pedira que cuidasse do filho.
Um sorriso insinuou-se nos lbios de Richard, apesar da tristeza que o dominava. Pois acabava de se lembrar da confiana que o pequeno Jonathan demonstrara, com relao a ele, desde o primeiro momento.
Alis, o pessoal do hospital o havia tomado pelo pai do garotinho. Esse fato fora como um alento para seu corao sofrido.
Justo ele, que durante os ltimos anos estremecia ao ouvir a palavra filho... Pois esta o fazia lembrar-se do beb que morrera antes mesmo de nascer.
O sorriso apagou-se dos lbios de Richard. E a angstia voltou a imperar, soberana, em seu ntimo.
"Minha culpa", ele pensou novamente.
Essa sinistra certeza o acompanhava havia trs anos.
Na poca do acidente que matara Stacy e o beb, Richard julgara que fosse enlouquecer.
Todo mundo, sem exceo, tentara arranc-lo desse remorso: os mdicos, a me, os amigos mais prximos, at mesmo os pais de Stacy lhe diziam que ele no podia se considerar responsvel por aquela tragdia.
Porm, de nada adiantara. O remorso j se arraigara profundamente em sua alma. E ningum no mundo poderia remov-lo dali.
Uma enfermeira entrou no campo de viso de Richard, que voltou ao momento presente.
Com a respirao suspensa, ele observou-a aproximar-se do leito de Kate e consultar a prancheta com as informaes sobre seu estado.
A enfermeira puxou o lenol para baixo, talvez para prestar alguma assistncia  paciente.
Richard notou que um brao de Kate estava enfaixado, desde o cotovelo at a mo.
Havia tambm outros ferimentos e escoriaes, nas pernas e ps, ele constatou, penalizado.
A fadiga, resultante de muitas horas de trabalho e do desgaste nervoso, comeava a cobrar seu tributo. Richard sentia que as energias o abandonavam. Ele precisava, urgentemente, de descanso.
Sabia que de nada adiantaria continuar ali, olhando para Kate e remoendo a terrvel tragdia do passado.
Era melhor ir para casa, levando o pequeno Jonathan.
 Tenho de ir  ele se ordenou, baixinho.
Entretanto, no conseguia se mover dali.
Na verdade, estava dividido: por um lado desejava permanecer exatamente naquele local, observando Kate Burnett, at que ela reagisse aos medicamentos e sasse do estado de choque. Por outro, porm, tinha vontade de correr para longe, o mais longe possvel do hospital e de tudo o que ele representava.
Richard passou a mo nos cabelos negros, num gesto de nervosismo e cansao. Era como se duas foras contraditrias o habitassem. E por um momento ele desejou, realmente fugir... Fugir daquela jovem me e do filho entregue a seus cuidados. Fugir do hospital que lhe trazia terrveis lembranas. Fugir do cheiro anti-sptico da morte.
 Oh, no  Richard murmurou.  Eu no suportarei um segundo golpe.
No podia simplesmente continuar ali e assistir  morte de outra mulher.
Bem, isso no ia acontecer. No mesmo. Alm do mais, o estado de Kate no era to grave quanto o de Stacy. As circunstncias tambm eram outras.
Richard fechou os punhos com fora, tentando reunir as ltimas reservas de energia que lhe restavam.
Tinha trabalhado arduamente, nos ltimos anos. O resultado era bem visvel: sua empresa de informtica havia se transformado numa das maiores de Memphis.
Mas no fora por ambio que se entregara dia e noite ao trabalho. Na verdade, s fizera isso para tentar esquecer, ou ao menos amenizar, a dor dilacerante que habitava seu o corao.
Enquanto trabalhava, Richard s vezes conseguia deixar de pensar na tragdia que arruinara para sempre seu sonho de ser feliz com Stacy e o beb.
A maioria das pessoas o consideravam um vencedor. Apenas as mais prximas sabiam que, para ele, o dinheiro e o sucesso no eram os fatores mais importantes da vida.
Trs anos atrs, nos dias que se seguiram  tragdia, Richard ficara totalmente desorientado. Os amigos tinham lhe recomendado que viajasse, procurasse se espairecer.
Mas Richard sabia que, para onde quer que fosse, levaria consigo o sofrimento.
Alm do mais, o significado da palavra espairecer parecia-lhe totalmente ridculo, diante de tanta dor.
Assim, ele concentrara todas as foras na empresa. Os programas que criava, as inovaes, os perifricos, o sucesso... Tudo isso o ajudava a ludibriar o remorso, durante o dia. E,  noite, a exausto ajudava a chamar o repouso merecido, depois de uma jornada de at dezoito horas de trabalho.
	Sr. Richard MacNeal?  Uma enfermeira tocou-lhe o brao, gentilmente.
	Sim?  Richard voltou-se.
	J entreguei a ficha da sra. Kate Burnett na tesouraria. Ela est a sua inteira disposio.
	Ah, claro  Richard assentiu. Havia informado aos mdicos que fazia questo de encarregar-se de todas as despesas do tratamento de Kate Burnett. Agora, teria de passar pela tesouraria, para assinar um termo de compromisso.
	Fique tranquila, Kate  ele disse, baixinho, fitando com intensidade a mulher inconsciente, em quem a enfermeira acabava de aplicar uma injeo.  Cuidarei de Jonathan para voc.
A enfermeira pareceu perceber o que se passava, pois naquele momento voltou-se para Richard e sorriu, como se o encorajasse.
Ele acenou-lhe e afastou-se em direo  tesouraria, onde foi atendido com especial deferncia.
	O senhor  marido da sra. Kate Burnett?  uma funcionria jovem e simptica indagou.
	No, senhorita. Na verdade, eu...  Richard interrompeu-se. Quase ia confessando que nem sequer a conhecia. Mas conseguiu corrigir-se a tempo.  Sou apenas um amigo.
	Ah  a jovem assentiu, entregando-lhe um documento.  Queira assinar este termo de compromisso, sim?
	Certo  Richard aquiesceu.
	Aqui est o oramento do tratamento da sra. Kate Burnett. Talvez hajam alteraes, dependendo das reaes que ela apresentar.
Richard leu o papel que a funcionria lhe estendia. Felizmente, possua dinheiro bastante para pagar a pequena fortuna ali descrita.
 Eu j disse ao dr. Silverstein que pagarei tudo o que for necessrio ao bem-estar de Kate  ele informou  funcionria.
 Sim, sr. MacNeal.  A jovem sorriu, solcita. Pouco depois, Richard despedia-se e saa em direo  sala de espera, onde deixara Jonathan dormindo, cerca de uma hora atrs.
Onde estava com a cabea, quando sentira vontade de fugir daquele hospital?, perguntou-se. Nunca nem mesmo no auge do desespero, seria capaz de abandonar Kate e o pequeno Jonathan.
Bem, no adiantava recriminar-se. Richard sabia o quanto o desgaste podia perturbar a mente e, sobretudo, o esprito.
Ansioso para ver o garotinho, ele apressou o passo.
Jonathan j havia acordado. Sentado num tapete, brincava com cubos coloridos, sob o olhar atento de uma enfermeira.
O garotinho sorriu ao v-lo:
	Oi, amigo. Onde est mame?
	Descansando  Richard respondeu, tomado de ternura por aquela criana encantadora.
	Quero ver mame.
	Agora, no vai dar. Alm do mais, ela est dormindo e no poderia mesmo conversar com voc.
	Mas eu queria...
	Querido, lembra-se que eu lhe expliquei que sua mame precisa descansar muito, para ficar boa?  a enfermeira interveio. Era uma mulher de cerca de cinquenta anos, de olhar bondoso e compreensivo.
Richard fitou-a com um misto de simpatia e gratido. No saberia mesmo o que fazer, se o pequeno Jonathan comeasse a insistir em ver Kate.
	Por que no convidamos seu amigo para brincar conosco?  a enfermeira sugeriu.
	Voc quer, Richard?  o menino perguntou.
	Claro.  Richard sentou-se no tapete, ao lado dele.  Eu adoro cubos coloridos, sabia?
	 mesmo? A sra. Andersen tambm sabe fazer coisas bem bonitas, com eles.  Jonathan referia-se  enfermeira.
	Aposto que sim  Richard concordou, olhando do garoto para a mulher, que agora se levantava.
	Bem, com licena. Tenho umas tarefas a fazer.
	Que tarefas?  Jonathan quis saber.
	Preciso cuidar de um garotinho que tem quase a sua idade, meu bem.
	Ele est doente?
	Esteve, mas j comeou a ficar bom.
	Ento, ele pode brincar com a gente?
	Ainda no, querido.  Inclinando-se, a sra. Andersen acariciou-lhe os cabelos castanhos.  Mas daqui a alguns dias, quem sabe?!
 Daqui a alguns dias mame j vai estar em casa.
Jonathan afirmou, enquanto separava alguns cubos, colocando-os diante de Richard. Fitando-o com expectativa, perguntou:  No  mesmo, amigo?
	Talvez  Richard respondeu.
	Oh, com certeza ela estar, sim  a enfermeira assegurou.
Richard lanou-lhe um olhar inquieto. No gostava de mentir para ningum, principalmente para crianas. Kate Burnett talvez levasse semanas para voltar para casa. Isso dependeria de sua reao. Mas era bvio que no se recuperaria em poucos dias.
	Bem, at mais tarde, garotos  a enfermeira acenou e afastou-se pelo corredor que conduzia ao setor de pediatria.
	Espere um momento, sim, meu anjo?  Richard pediu a Jonathan.  Eu j volto.
	Aonde voc vai?
	Falar com a sra. Andersen. Mas levarei apenas um instante.  Richard apressou-se a alcanar a enfermeira, no corredor.  Por favor, senhora...
	Sim?  Ela voltou-se, com um sorriso.
	Em primeiro lugar, quero agradec-la por ter feito companhia a Jonathan.
	Ora, foi um prazer. Eu adoro crianas, sr. MacNeal. Tanto, que o setor de pediatria  o meu preferido
Richard assentiu, polidamente. E hesitou antes de dizer:
 Sra. Andersen,  bem provvel que nos encontremos nas prximas semanas, quando eu vier visitar Kate. Talvez tenha de trazer Jonathan. Ento, pedirei  senhora que fique com ele, quando eu for conversar com os mdicos.
 Pois estarei a sua inteira disposio, sr. MacNeal  a enfermeira respondeu, solcita.  Jonathan  um amor de garoto. To esperto para sua pouca idade! E difcil acreditar que ele tenha apenas quatro anos.
	De fato, Jonathan  uma criana de rara inteligncia e sensibilidade. Por isso mesmo, peo-lhe que seja sincera com ele.
	Como assim?  A sra. Andersen franziu o cenho.
 Eu sempre sou muito sincera com as pessoas em geral, sobretudo com as crianas.
	Perdoe-me se eu lhe parecer grosseiro, mas devo lembr-la que a senhora acabou de mentir para Jonathan.
	Eu?  ela reagiu, chocada.
	Sim, ao dizer-lhe que sua me voltar para casa dentro de alguns dias.
A enfermeira fitou-o com estranheza, mas depois meneou a cabea e sorriu.
	Ento foi por isso que o senhor me olhou com aquele ar de censura, agora h pouco...
	Para ser franco, sim  Richard confirmou.  No h nada que eu deseje mais do que ver Kate Burnett voltar para casa. Mas sei que isso no acontecer em breve.
	Bem, pelo que o dr. Silverstein comentou, ela est em estado de choque. Mas pode reagir a qualquer momento. E, s vezes, ocorrem milagres. Eu mesmo j presenciei alguns, em meus quase trinta anos de carreira.
	Espero, sinceramente, que um milagre desses acontea com Kate.  Richard suspirou.  Mas o fato  que as possibilidades reais so bem diferentes.
	Richard!  Jonathan o chamou, a poucos metros de distncia.  Voc no vem?
 J estou indo, meu anjo.  Voltando-se para a enfermeira, Richard resolveu ser direto:  O que quero dizer, sra. Andersen,  que no acho justo mentir para Jonathan, dando-lhe uma falsa segurana.
 O que o faz pensar que eu agi assim?
Baixando a voz, Richard afirmou:
 Bem, a senhora lhe disse que Kate estaria de volta em casa dentro de alguns dias...
A enfermeira voltou a sorrir, antes de indagar:
 O senhor tem filhos?
A pergunta pegou Richard de surpresa. Engolindo em seco, ele respondeu:
	No. Mas o que isso tem a ver...
	Com o assunto?  a sra. Andersen completou.
	Sim.
	Se o senhor fosse pai, compreenderia porque falei daquela maneira com Jonathan.  E a enfermeira explicou:  Aos quatro anos, por mais inteligente e sensvel que seja, a criana no tem uma noo muito exata do tempo. Alguns dias  uma expresso que pode significar uma longa espera, ou algo mais suportvel. Isso depender de um nico fator.
	Qual, sra. Andersen?
	O modo como a criana passar esses dias. No caso de Jonathan, creio que o senhor ser diretamente responsvel por isso. Se conseguir entret-lo, dando-lhe segurana emocional alm de suprir-lhe as necessidades fsicas bsicas, o menino passar sem grandes traumas por esse perodo.  A enfermeira fez uma pausa.  Se quer saber minha opinio, sr. MacNeal, aposto que o senhor dar conta dessa tarefa, sem grandes problemas.
Richard sorriu, sentiu-se grato quela mulher sbia e simples, que talvez nem tivesse idia do grande apoio que estava lhe dando.
	Obrigado por seu voto de confiana, sra. Andersen. E desculpe minha ignorncia, com relao  psicologia infantil.
	A psicologia  uma cincia. Mas, como dizia Albert Einstein, a intuio deve ser nosso verdadeiro guia. Quando nos falta conhecimento terico, o corao  o melhor conselheiro. E, pelo que pude perceber, o senhor tem um timo corao.
	Agradeo, mais uma vez, suas palavras de conforto.  Richard estava comovido.
	Ora, o senhor bem que merece. Kate Burnett e o pequeno Jonathan tm sorte de poder contar com seu apoio.  Estendendo a mo, a sra. Andersen despediu-se:  Agora preciso ir, pois tenho um paciente me esperando.
	Est bem. Obrigado por tudo, sra. Andersen.
	Ora...  Com um aceno para Richard e outro para Jonathan, ela se afastou. Mas ainda voltou-se para dizer:  Se tiver necessidade de conversar sobre esses assuntos to delicados, pode contar comigo, sr. MacNeal.
	Certo.  Richard sorriu novamente.  Acho que vou precisar, sim.
	Conversar do qu?  o pequeno Jonathan quis saber.
	De cubos coloridos e amizade  Richard respondeu, sentindo o corao mais leve.
Naquele momento difcil, a solidariedade da sra. Andersen e a inocncia daquele garotinho eram como um osis em meio ao deserto em que sua alma se encontrava.
Essa sensao aumentou,  medida que Richard brincava com Jonathan.
O menino parecia confiar inteiramente nele. E isso o comovia sobremaneira.
Jonathan era uma criana espontnea e encantadora, alm de muito brilhante. Possua olhos azuis, como os dele, Richard constatou. E cabelos castanhos. Tinha a pele clara, naturalmente corada.
O garotinho havia herdado, da me, o tom da pele e o nariz arrebitado. Talvez os cabelos castanhos fossem como os do pai, assim como os olhos.
O menino conversava com desenvoltura e, ao menos naquele momento, j no parecia to preocupado com a me.
Em pouco tempo, Richard ficou sabendo que ambos vinham de Jackson, uma cidade no muito distante de Memphis. E que tinham chegado havia pouco tempo.
Richard chegou a essa deduo porque Jonathan mencionou, orgulhoso, que ia entrar numa nova escolinha, bem mais bonita do que a que frequentava em Jackson.
Richard ficou sabendo, tambm, que Kate comearia a trabalhar brevemente nessa mesma escola. Seria professora? Ou pedagoga, talvez?
Mais de uma hora se passou. Jonathan comeava a se cansar da brincadeira com os cubos.
	Que tal se fssemos embora, amigo?  Richard props, delicadamente.
	Para minha casa?  Jonathan perguntou.
	No, querido... Para meu apartamento  Richard respondeu, cauteloso. Tinha encontrado uma agenda, entre os pertences de Kate, com vrios recortes de jornal sobre apartamentos para alugar. Certamente ela havia optado por um deles. Mas qual seria?
	Vamos?  ele insistiu, acariciando os cabelos do garotinho.
Jonathan ficou em silncio por alguns instantes. Por fim, concordou com um gesto de cabea, enquanto bocejava.
	Voc est com sono novamente?
	Um pouquinho.
 Logo poder dormir. Mas, antes, precisa comer alguma coisa.
	A sra. Andersen j me deu um lanche bem gostoso.
	Abenoada sra. Andersen  disse Richard, como se para si.
	O que  abenoada?  Jonathan quis saber.
	 uma pessoa boa, alegre e generosa... Assim como a sra. Andersen.
	Ah, bom  Jonathan assentiu, muito srio, enquanto tomava-lhe a mo.
Assim, ambos caminharam em direo  sada do hospital. J na portaria, Jonathan perguntou, de sbito:
	Posso ver a mame, antes de ir embora?
	Acho que no, querido. Lembra-se de que a sra. Andersen disse que ela precisa dormir bastante?
 Mas eu no vou fazer barulho...
Penalizado e ao mesmo tempo enternecido, Richard afirmou:
 Tenho certeza de que voc ficaria em silncio, amigo. Mas, mesmo assim, no poder v-la... por enquanto.
Jonathan baixou o rostinho. Quando o ergueu, seus olhos estavam cheios de lgrimas.
	Por favor, no fique assim.  Richard abaixou-se e abraou-o com fora.
	Estou com saudade da mame.  Jonathan agora chorava baixinho.
Richard sentia o corao partido. No se sentia com foras para suportar aquela provao. Mas era bvio que essas crises de choro de Jonathan se repetiriam, nos prximos dias.
 V para casa, sr. MacNeal  disse uma voz suave, logo atrs de Richard.
Voltando-se, ele deparou com a sra. Andersen.
 De nada adianta continuar aqui. O senhor e o pequeno Jonathan precisam descansar.
Fazendo um intenso esforo para no demonstrar a emoo que sentia, Richard perguntou ao garotinho:
	Que tal seguirmos o conselho da sra. Andersen?
	"T" bom  o menino concordou, aconchegando-se em seu peito.
Richard levantou-se, com Jonathan nos braos. Virou-se para a sra. Andersen, para agradec-la. Mas ela j havia se afastado.
"Acho que de hoje em diante poderei dizer que j vi um anjo pessoalmente", Richard pensou, invadido por uma sensao de alvio. "Pois, se existem anjos, a sra. Andersen  um deles."
O jipe de Richard estava estacionado no ptio do hospital. Um policial o havia liberado, depois de registrar a ocorrncia.
 Seu jipe  to bonito  Jonathan comentou, com a curiosidade prpria dos meninos.
Seu rostinho ainda trazia as marcas do choro, Richard observou, enternecido.
Decididamente, a lgica das crianas era bem diferente da dos adultos. O pequeno Jonathan, ao menos naquele instante, parecia no ver nenhuma conexo entre o jipe azul e o acidente.
O nimo do garotinho melhorou ainda mais quando Richard o acomodou no banco da frente, fixando o cinto de segurana da melhor maneira possvel.
Richard dirigiu em baixa velocidade, at chegar ao condomnio onde morava. No dia seguinte, e nos prximos, usaria seu Mercedes. Pois no era nada seguro conduzir uma criana de quatro anos no banco dianteiro de um jipe.
Ele quase comentou esse fato em voz alta, mas calou-se a tempo. Afinal, Jonathan parecia encantado com o jipe... Como alis qualquer criana ficaria.
	Veja...  Jonathan apontou um carto, sobre o painel, no momento em que Richard estacionava em sua vaga, na garagem do condomnio.  O que  isso?
	No sei.  Richard pegou o carto e, acendendo a luz do interior do veculo, leu:  Charles Albert Oak... Veterinrio. Quem ser?
O verso do carto trazia uma mensagem que explicava tudo:
Senhor, no sei o seu nome. Sou o motorista da caminhonete que bateu no Escort daquela pobre moa. Por favor, entre em contato comigo, para dar-me notcias sobre ela e o garotinho. Obrigado.
Richard guardou o carto no bolso.
 Posso ver?  Jonathan pediu.
Richard aquiesceu. O menino olhou o carto e o devolveu em seguida.
Richard saltou do veculo e, contornando-o, abriu a porta do lado de Jonathan. Tirou-lhe o cinto de segurana e estendeu os braos:
 Venha, amigo.
O menino sorriu e atirou-se em seu colo, com uma confiana comovente.
Richard acariciou-lhe os cabelos e colocou-o no cho.
"Fique tranquila, Kate Burnett, pois cuidarei de seu filho", disse, em pensamento.
"Eu sei."
Richard estremeceu. Teria sido impresso, ou acabava de ouvir a voz de Kate, com uma nitidez impressionante?
E como a confirmar aquele momento de magia, o pequeno Jonathan comentou:
	Mame vai ficar contente.
	Por qu?
	Por saber que eu vim para c. Assim, voc pode cuidar de mim.
Richard sorriu, tomado por um sentimento que mesclava alvio, ternura e alegria.
Ele, que sempre fora ctico em relao a fenmenos paranormais, telepatia e premonies, no podia negar que algo inexplicvel acabava de acontecer.
 "H muito mais coisas entre o cu e a terra do que supe a nossa v filosofia"  Richard citou o grande dramaturgo, William Shakespeare.
 O que voc disse?  o garotinho perguntou. Sorrindo, ele respondeu:
	Falei que tem certas coisas, na vida, que a gente no entende.
	Minha me entende tudo  Jonathan sentenciou, tomando-lhe a mo.  Vamos?
Richard continuava sorrindo, invadido por uma forte emoo. Afinal, quem estava conduzindo quem? Naquele instante sublime, quem era o menino? Jonathan, ou ele prprio?

CAPTULO III

Perdido em algum ponto entre o sono e a viglia, Richard sentiu um aroma tentador de caf e ovos com bacon.
Ainda nesse estado, ele sorriu.
Devia ser domingo, o nico dia em que no trabalhava na Data Enterprises. Era, tambm, o dia em que costumava encontrar sua me, Alice MacNeal.
s vezes ela lhe fazia uma surpresa: como tinha as chaves do apartamento, chegava cedinho e preparava-lhe um saboroso desjejum.
Devia ser isso que estava acontecendo naquela manh, Richard pensou, vagamente, enquanto esticava o corpo, buscando uma posio mais confortvel.
Com certeza Alice estava na cozinha, passando caf, fritando ovos com bacon, preparando panquecas deliciosas como s ela sabia fazer.
Depois, ele a levaria para passear. Almoariam juntos e,  tarde, assistiriam a um bom filme.
Richard abriu os olhos. Ainda estava pensando em como seria bom passar o dia na companhia da me, quando caiu na dura realidade.
 Jonathan!  exclamou, levantando-se de um salto, enquanto lanava um olhar aflito na direo do relgio de cabeceira.
Onde estaria o menino? J teria acordado?
Era bem provvel que sim. Afinal, passava das dez horas.
Richard correu at o banheiro, para tomar uma rpida ducha.
O forte jato de gua morna massageou-lhe os msculos cansados e ajudou-o a despertar de vez.
Com movimentos apressados, ele vestiu uma bermuda bege, uma camiseta branca, calou confortveis chinelos de lona e saiu da sute.
Caminhando a passos largos pelo corredor, chegou a uma das sutes de hspedes, que havia preparado para Jonathan, na vspera.
Bateu  porta e entrou, mas o garotinho no se encontrava l. Entretanto, a cama estava arrumada.
Richard sorriu. Aos quatro anos, Jonathan j havia aprendido a arrumar sua prpria cama. Isso no era apenas espantoso, mas tambm comovente.
Saindo da sute, Richard dirigiu-se  sala e, dali,  cozinha.
Ao se aproximar, ouviu vozes animadas, que logo identificou. A cena que viu, em seguida, o fez lembrar-se de um sonho que ele acalentava, antes de perder Stacy e o beb...
Alice MacNeal usava um avental marrom sobre seu vestido estampado com motivos florais, onde os tons amarelos predominavam.
Alice era uma mulher robusta e vigorosa, de estatura mdia. Tinha completado cinquenta e cinco anos no ms anterior. Ainda conservava, no rosto arredondado e risonho, traos da beleza que possura na juventude.
Os cabelos negros, j grisalhos, estavam cuidadosamente arrumados, em um coque.
Os olhos, castanhos, guardavam um toque de vivacidade.
Richard amava a me, no apenas pelo lao indestrutvel que os unia, mas tambm por admir-la. Era incrvel como os sofrimentos da vida no tinham conseguido apagar o brilho dos olhos de Alice, nem a alegria de seu corao.
Naquele momento, ela explicava a Jonathan o segredo de fazer panquecas deliciosas, no ponto perfeito.
 Primeiro, voc tem que preparar a massa, de modo bem equilibrado. Nada de exagerar nos ingredientes. Se puser muito leite, a panqueca no chegar  consistncia necessria para ser levada  frigideira. Se puser muita farinha, ela ficar pesada e perder boa parte do sabor...
Sentado numa banqueta, perto do fogo, Jonathan a escutava com um interesse que a maioria dos garotinhos de sua idade certamente no teria.
Alice, por sua vez, parecia uma dedicada e paciente vov.
Quantas vezes, durante a gestao de Stacy, Richard sonhara com aquela cena!
Apenas, havia uma diferena... No sonho, Alice estava exatamente assim: preparando guloseimas enquanto conversava com o neto.
Mas esse neto era o beb que morrera com Stacy, que nem sequer chegara a se transformar num garotinho.
Abalado por essa lembrana dolorosa, que o abatia com a violncia de um golpe, Richard rechaou-a com toda fora de que era capaz. No queria pensar na tragdia que lhe roubara a possibilidade de ser feliz. No quando estava apenas comeando um novo dia.
Com um brusco meneio de cabea, ele procurou afastar aquela imagem da mente.
O movimento chamou a ateno de Jonathan, que sorriu ao v-lo. Saltando da cadeira, correu em sua direo:
	 Oi, amigo. Adivinhe o que Alice est fazendo?  Sem esperar pela resposta, anunciou:  Panquecas em forma de gato!
	 No diga!  Richard fingiu-se surpreso, enquanto o tomava no colo e o beijava carinhosamente.
Desde criana, conhecia aquela velha frigideira, que tinha a forma de um gato. Muitas vezes, quando menino, sentira-se to entusiasmado quanto o pequeno Jonathan. Mal podia esperar para saborear as panquecas que, alm do mais, tinham um formato diferente das comuns.
Quando Stacy ficara grvida, Alice dera-lhe de presente a tal frigideira, mas com um aviso:
 Quem vai us-la sou eu, para preparar as mais deliciosas e divertidas panquecas do mundo para meu neto.
Esse sonho tambm no chegara a acontecer, Richard pensou, com tristeza. Mas, curiosamente, parecia estar se realizando naquele momento, ao menos em parte... O garotinho era outro. Mas Alice e ele eram os mesmos... Ou no?
Mais uma vez, Richard teve de lutar para no ceder  angstia. Ele nunca mais seria o mesmo, depois da tragdia que o abatera, trs anos atrs.
"Quero pensar apenas no presente", decidiu, colocando o pequeno Jonathan no cho.
Aquele momento era belo demais para ser ignorado. E Richard queria desfrut-lo, em toda sua intensidade.
Seus olhos encontraram os da me, Alice MacNeal.
Ela parecia to emocionada quanto ele, Richard constatou. Mas nem por isso o poupou de suas brincadeiras, como alis era seu costume:
 Ora, se no  o sr. Rip Van Winkle!  Alice exclamou.
Segundo a lenda, esse personagem teria dormido por um sculo. Ao acordar, descobrira que sua barba chegava at os ps.
O pequeno Jonathan riu, divertido, antes de comentar:
	Mas a barba de Richard cresceu s um pouquinho, mesmo ele tendo dormido muito.
	Vejo que voc conhece a estria de Rip Van Winkle.  Alice sorriu para o garotinho. Em seguida voltou-se para Richard.  Jonathan  muito inteligente, alm de encantador.
 Isso, eu j havia percebido.  Richard sorriu para a me.
Os dois se beijaram, carinhosamente, nas faces.
	Por que no me chamou, mame?  Richard perguntou.
	Porque pensei que voc j estivesse acordado, oras. Logo que entrei aqui, ouvi movimentos na cozinha. Imagine minha surpresa quando descobri que quem estava preparando o desjejum era um garotinho de quatro anos de idade e no um homem de trinta e trs!
	Eu tenho quase cinco anos!  Jonathan fez questo de frisar.
Richard fitou-o por um instante, com uma expresso de espanto. Em seguida perguntou a Alice:
	Voc est dizendo que Jonathan preparou tudo isso, mame?
	Acredite se quiser, querido.
 Mas no  possvel!  Richard voltou-se para o garotinho.  Como fez isso, Jonathan?
O menino deu de ombros, como se no compreendesse o motivo de tanto espanto.
 Sempre fao o caf da manh para mame, antes de ela ir trabalhar.  Hesitou, antes de prosseguir:
 Ponho o p no coador e deixo a gua numa vasilha, pronta para ferver, em cima do fogo. Mame me pediu para no acender o fogo, porque tem medo que eu me queime.  Com um sorriso angelical, finalizou:  Mas hoje, como mame no estava aqui, eu quis fazer uma surpresa para voc, amigo. Por isso acendi o fogo e passei o caf.
	E tambm fritou os ovos e o bacon...  Alice interveio  para fazer uma surpresa a Richard?
	Sim. L em casa eu sempre deixo os ovos numa tigelinha, prontos para mame fritar. Mas hoje eu resolvi cuidar disso...
Comovido, Richard abaixou-se e acariciou-lhe o rostinho.
	Agradeo esta linda surpresa, Jonathan. Mas, por favor, no volte a mexer com fogo, est bem? Voc pode se queimar...
	Ih, voc est falando igualzinho a mame.
	 porque me preocupo com seu bem-estar.
	Falou igualzinho de novo.
A graa de Jonathan era irresistvel. E os adultos riram, entre emocionados e divertidos.
 Veja s a mesa que nosso amiguinho arrumou  disse Alice.
 Incrvel  Richard surpreendia-se, mais uma vez. A loua, talheres e descansos de madeira estavam bem distribudos, sobre uma toalha xadrez, azul e branca.
	Nem  preciso dizer que, na sua casa,  voc quem arruma a mesa  disse Richard.
	Acertou, amigo  o garotinho respondeu, orgulhoso.
Alice voltou a fritar panquecas. Faltavam apenas duas e ela logo terminou o trabalho.
	Vamos tomar caf, meninos? Est tudo pronto.
	Posso levar as panquecas para a mesa?  Jonathan pediu.
Richard e Alice trocaram um olhar preocupado. A travessa de loua, contendo cerca de uma dzia de panquecas, podia ser pesada para aqueles bracinhos to frgeis.
 Por favor...  o menino insistiu.
E Alice, como uma tpica av-coruja, no conseguiu recusar.
 Est bem, mas tome cuidado, sim? 
O garotinho assentiu, muito srio, enquanto pegava a travessa com extremo cuidado.
Richard e Alice o observaram atentamente, enquanto ele caminhava devagar em direo  mesa.
	Olhe bem para o pequeno Jonathan, filho  disse Alice, em voz baixa.  J percebeu o quanto ele se parece com voc?
	Comigo?  Richard reagiu, surpreso.
	Sim. Voc, quando tinha essa idade, era quase idntico a ele!
	No exagere, mame  Richard a repreendeu, carinhosamente.  Compreendo que esteja encantada com Jonathan e no a censuro por isso. Afinal, sei que ele  irresistvel. Mas da a julgar que ns dois...
Richard no concluiu a frase. Tinha acabado de ver Jonathan depositar a travessa sobre a mesa e subir numa cadeira. At a, isso no significava nenhuma novidade. Mas o fato do garotinho ter se ajoelhado e batido o garfo sobre o prato, exatamente como ele costumava fazer... era incrvel.
	Acho que temos uma semelhana, sim  Richard acabou admitindo, tomado por uma forte emoo.  A mesma cor dos olhos, por exemplo.
	No apenas a cor, mas o jeito de olhar, curioso, como se o mundo fosse uma caixinha de surpresas  Alice afirmou, docemente.  E tambm o modo de sorrir. Nossa, vocs so to semelhantes! Esse menino parece seu filho, Richard!
Mal havia acabado de falar, Alice levou a mo  boca.
	Eu e minha lngua comprida. Desculpe, querido, eu no deveria tocar nesse assunto doloroso, no  mesmo?
	No se preocupe, mame. Eu mesmo venho pensando nisso, desde ontem. Afinal, a circunstncia em que conheci Jonathan...
	Qual foi?  Alice o interrompeu.
	Ele no lhe contou?
	No. Disse apenas que era seu amigo.
	Vamos comer?  Jonathan interveio.
	Mais tarde eu lhe contarei, mame  Richard avisou-a, discretamente, enquanto se dirigia  mesa.
Pouco depois, os trs saboreavam o desjejum, num clima alegre e cheio de emoo. A inocncia de Jonathan era comovente. A presena de uma criana iluminava a vida dos adultos, emprestando-lhe um novo sentido.
Kate comeava a se sentir cansada. A tentao de se entregar ao poo escuro ia se tornando maior,  medida que suas dores aumentavam.
Ela sabia que no podia ceder, que apesar de tudo as dores pertenciam ao mundo vivo. A ausncia de sofrimento era tambm o nada.
Como podia saber de tudo isso, Kate no tinha a menor idia. Mas uma certeza a habitava: se ela cedesse, se permitisse que as sombras a arrastassem novamente para aquele poo escuro, talvez j no conseguisse voltar.
Havia momentos em que ela podia sentir o prprio corpo, dolorido e frgil. Depois, essa sensao se desvanecia.
Ela tambm no tinha idia de onde estava, ou do que acontecia ao redor. Chegou mesmo a ouvir barulhos, embora no conseguisse identific-los.
Havia tambm o som de vozes. Mas pareciam to distantes, confusas, vagas.
De algum modo, Kate sabia que era preciso concentrar-se nesses sinais. Mas no conseguia fixar-se nele por muito tempo.
Tinha de haver um elo, um caminho que a salvasse, em definitivo, do perigo de voltar  escurido.
Sem noo alguma do tempo, ela ora se perdia numa sonolncia, ora era atacada por uma dor dilacerante, ora caa no vazio, no nada.
Ah, como era cansativo vagar assim, entre tantas formas de percepo. Se ao menos ela pudesse desfrutar de algum alento, um breve perodo de descanso que fosse, para recuperar um pouco de energia!
 Kate...
A Voz havia retornado. Quente, clida e to prxima, como se falasse diretamente a sua alma.
Kate fez um intenso esforo para concentrar-se nela. No sabia, at aquele momento, que estivera o tempo todo esperando pela Voz. Por isso lutara tanto para no ceder ao caminho sem volta do poo escuro.
 Sei que voc provavelmente no pode me ouvir  A Voz continuava.  Mas talvez consiga compreender, de algum modo, o que estou dizendo... Seno as palavras, ao menos seu significado.
Kate queria sair do estado de inrcia no qual se encontrava. Seria to bom se pudesse responder quela Voz... Entretanto, seu corpo parecia alheio a sua vontade.
Alheio, sim. Mas no insensvel, Kate constatou, em seguida. A maior prova disso era um contato clido em sua testa.
 Jonathan est bem. Quanto a isso, voc pode ficar tranquila  dizia A Voz.  Naturalmente, no me deixaram traz-lo aqui, na unidade de terapia intensiva. Mas hoje ao menos me deixaram entrar e ficar pertinho de voc. At ontem, eu s podia olh-la atravs do vidro.
Kate experimentava uma indescritvel sensao de bem-estar. Agora A Voz tocava-lhe as faces, o brao, a mo. Ah, como esse contato era precioso, vital!
 Tambm, acho que voc no gostaria que Jonathan a visse desse jeito. Apesar de ser uma criana muito inteligente e brilhante, ele ficaria impressionado. Olhe, eu no disse que seu estado  ruim... Apenas... bem, acho que voc me entende. Ser melhor que Jonathan a veja quando voc estiver acordada. Assim, podero conversar...
Kate queria sorrir, agradecer a bondade expressa em cada palavra pronunciada pela Voz. Mas j no tinha domnio sobre si mesma. Conseguia apenas sentir, mas era incapaz de se mover.
 Aposto que voc est com saudade de seu filho. E esse sentimento  to doloroso, apesar de belo, no acha, Kate? Por isso, trouxe-lhe uma coisa... Acho que  um jeito de tapear um pouquinho a saudade, de torn-la menos cruel. Escute s...
Kate fez um intenso esforo para se concentrar. E ento conseguiu ouvir, com clareza:
Mame, voc est a?
"Jonathan!" Ela quis gritar de felicidade. Era a voz do filho, seu motivo para viver. Tinha certeza disso.
 Trata-se de uma fita cassete  A Voz esclareceu.  Eu e minha me ajudamos Jonathan a gravar esta mensagem, hoje de manh. Escute s, Kate... Vou colocar o toca-fitas ainda mais perto de seu ouvido.
Oi, mame. Estou no apartamento de Richard, com ele e Alice. Sabe de uma coisa? Tem uma piscina linda, l embaixo. Claro que agora est muito frio, para nadar. Mas Richard falou que posso vir no vero. Voc tambm pode, mame. Bem, a piscina no  s dele. Alice me contou que  de todo mundo que mora neste... Como  mesmo o nome?
Uma outra voz interveio. E Jonathan completou:
Condomnio. Espere um pouco, mame... Alice falou uma coisa... Ah, ela pediu para contar que estou bem. Ela fez panquecas muito gostosas, hoje cedo. Panquecas em forma de gato, imagine s! Eu preparei o caf da manh para Richard. Ele prometeu que vai me levar at a, no hospital, quando voc acordar. Puxa, voc est dormindo tanto... Mas Alice falou que isso  bom, que o sono ajuda a sarar.
Agora era A Voz que intervinha.
Richard est me perguntando se eu quero falar mais alguma coisa... Bom, eu quero dizer que te amo muito, mame, e que estou com saudade. V se acorda logo, "t" bom?
Kate conseguiu ouvir o som de um tique. E a voz de Jonathan cessou.
Passou-se um perodo de silncio, que Kate no saberia dizer se era longo, ou curto. Ento, A Voz voltou a falar, bem perto de seu ouvido.
 J repeti isso muitas vezes, mas mesmo assim quero que saiba que estamos tomando conta de seu pequeno Jonathan. Portanto, no se preocupe, sim? Minha me, Alice MacNeal, sempre sonhou em ser av. E agora est podendo realizar, temporariamente, esse desejo. Ela cuidar de Jonathan, enquanto eu for trabalhar. E incrvel como as coisas acontecem... Trs
anos atrs, eu sonhava com um filho e, mame, com um neto. Mas ento ocorreu uma tragdia, sabe? E a vida deixou de ter sentido. Desisti de tudo, mas mame nunca abriu mo do sonho de ser av. No tenho a menor idia de como ela conseguir realiz-lo, j que sou filho nico e...
A Voz no completou a frase. Quando voltou a soar, estava carregada de angstia e ironia.
 Como sou idiota... At parece que esse assunto lhe interessa, Kate. At parece que voc pode me ouvir! De qualquer forma, achei que voc se sentiria melhor se soubesse que Jonathan est em boas mos. Alis, eu lhe prometi isso, no foi? E, modstia  parte, sei cumprir minha palavra.
Um novo perodo de silncio se seguiu.
"Fale, por favor. No pare nunca de me dizer essas coisas to lindas..." Era isso que Kate gostaria de pedir, se pudesse.
E ento, como se a tivesse ouvido, A Voz voltou a soar:
 Por falar em Jonathan, acho que preciso lhe dar os parabns, Kate. Voc fez um timo trabalho com ele. Que criana sensvel, inteligente, encantadora! E sabe do que mais? Minha me disse que eu, quando criana, era muito parecido com Jonathan... Imagine s!
Mais uma vez, a ironia marcava, amargamente, A Voz.
 At parece que isso  verdade... Mas voc sabe como so as mes... Sempre vendo os filhos com olhos bondosos... Mas de uma coisa voc pode ter certeza: mame  uma pessoa especial. Admiro-a profundamente. Ela lutou muito para me criar, sabe? Teve de fazer tudo sozinha, pois no contava com o apoio de meu pai.
Outro perodo de silncio. Depois, A Voz continuou:
 S agora me ocorre que estamos vivendo uma situao semelhante, Kate. Voc ontem me disse que o pai de Jonathan se foi... E o mesmo se deu com meu pai. Incrvel, no? Bem,  melhor que eu v embora, agora. Permitiram-me ficar aqui apenas por alguns minutos e acho que j estou abusando. Voltarei mais tarde, est bem?
Kate queria tanto retribuir, ao menos em parte, o alento que A Voz lhe proporcionava.
Todas aquelas palavras, o contato quente em sua mo e rosto... Eram como laos preciosos, que a ligavam  vida.
 Trate de ficar boa, sim?  A Voz pedia, suave mente.  Jonathan precisa muito de voc... E eu tambm. Ah, se voc pudesse imaginar o quanto necessito v-la recuperada! Por favor, faa isso por Jonathan, por voc e, quem sabe, por mim.
Kate queria dizer que sim, que faria de tudo para atender esse pedido da Voz. Mas no tinha domnio sobre si mesma.
Ansiosa, ela esperou que A Voz disse mais alguma coisa. Porm, o silncio voltava a imperar no estranho mundo em que ela se encontrava.
No fazia mal...
Agora, mais do que nunca, Kate estava certa de que conseguiria escapar do poo sem fundo onde tudo se findava...
A Voz lhe dera a garantia de que ela precisava, para continuar a lutar para sobreviver: Jonathan estava em boas mos. E isso era tudo que importava.
A Voz cuidaria de seu filho, at que ela estivesse em condies de faz-lo. A Voz era seu anjo da guarda, nesse mundo.

CAPTULO IV

Quando Richard entrou na unidade de terapia intensiva do Baptist Hospital, naquela noite, dirigiu-se diretamente  sala das enfermeiras e no ao leito de Kate. Queria saber notcias, a respeito de seu estado.
Encontrou a sra. Andersen no corredor. Ela o saudou com um largo sorriso, enquanto anunciava:
Parece que temos boas novidades para o senhor.
O rosto de Richard iluminou-se num sorriso cheio de esperana:
 Kate Burnett... acordou?
 Ainda no, sr. MacNeal. Mas apresentou uma melhora significativa e isso  maravilhoso. Venha comigo, sim? Vou lev-lo at Diane, que tem informaes mais exatas sobre o estado dela.
Richard acompanhou-a pelo corredor, at a sala das enfermeiras.
 Eu estava mesmo vindo para c  ele comentou. A risonha sra. Andersen bateu levemente  porta da sala, antes abri-la.
Vrias enfermeiras se encontravam ali. A sra. Andersen chamou uma delas.
 Diane, por favor...
 Sim?  Uma enfermeira de rosto sardento e jovial, aproximou-se.
	Este  o sr. Richard MacNeal, namorado de Kate Burnett  disse a sra. Andersen.
	Como vai, sr. MacNeal?  Diane o cumprimentou, com ar solcito.
Richard retribuiu o cumprimento, com uma expresso ansiosa.
	Estou bem, obrigado.  um prazer conhec-la, senhorita.
	Parece que Kate apresentou uma melhora significativa, no?  a sra. Andersen perguntou  colega.
	Sim.
	Ento, explique detalhadamente ao sr. Richard MacNeal o que isso representa.
	Claro  Diane aquiesceu.
	Bem, com licena. Preciso cuidar de meus afazeres.  Voltando-se para Richard, a sra. Andersen estendeu-lhe a mo.  Foi um prazer rev-lo.
	O prazer foi todo meu.
 A propsito, como vai indo nosso pequeno prncipe? Compreendendo que ela se referia a Jonathan, Richard sorriu, ao responder:
	Muito bem, obrigado.
	D-lhe um beijo por mim.
	Certo. Eu farei isso.
Com um aceno, a enfermeira comeou a se afastar, mas Richard alcanou-a.
	Sra. Andersen?
	Sim?
Baixando a voz, ele afirmou:
	A senhora disse a sua colega que sou... namorado de Kate Burnett.
	E no ?
	Na verdade, eu...  Richard hesitou.  Mesmo para uma mulher to compreensiva e bondosa como aquela, seria difcil explicar sua verdadeira relao com Kate. Alis, nem ele mesmo saberia dizer, com exatido, o tipo de lao que o unia quela mulher. Por isso, optou por uma soluo mais simples e declarou:  Sou apenas um amigo.
	Jura?  A sra. Andersen arregalou os olhos vivazes.  Pois eu poderia apostar que vocs so namorados!
	Pois dessa vez, mesmo com sua grande sabedoria a respeito da vida e dos seres humanos, a senhora errou o alvo  Richard comentou, cpm um sorriso.
	Ou talvez eu tenha apenas previsto o futuro...
	Como assim?  ele indagou, sem entender.
	Quem poder prever os caprichos do destino? Sou uma pessoa muito intuitiva, sabe? Talvez tenha percebido algo que est por acontecer...
Richard meneou a cabea, demonstrando sua incredulidade.
	Bem, seja l como for, achei que deveria esclarecer esse mal-entendido.
	Naturalmente, sr. MacNeal.  Com um aceno, a sra. Andersen se afastou.
Richard julgou ver um toque de ironia em seu olhar, mas no tinha tempo de pensar nisso, agora. No quando estava to ansioso para conversar com a enfermeira Diane, sobre a melhora de Kate.
Aproximando-se, ele pediu-lhe que falasse sobre o fato.
	Trata-se de uma mudana muito sutil  a enfermeira explicou.  Depois que o senhor a visitou, hoje cedo, ela parece estar mais serena. E seus sinais vitais aumentaram de intensidade.
	No diga!  Richard exclamou, tomado por um intenso alvio.  Tem certeza de que essa melhora est relacionada com minha visita?
	Absoluta. Afinal, ns no alteramos o tratamento. Claro que todos estamos nos empenhando para que Kate Burnett se recupere. Mas acho que afeto que o senhor lhe transmitiu, hoje, foi extremamente importante.
	Fico feliz em ouvir isso, senhorita.  E com os olhos azuis iluminados por uma centelha de esperana, Richard indagou:  A partir dessa melhora, seria possvel fazer uma previso a respeito de quando ela voltar  conscincia?
A enfermeira fitou-o com simpatia. Mas meneou a cabea, num gesto de negao.
	No posso lhe dizer mais nada, antes que o dr. Silverstein a veja. As consequncias de um estado de choque so imprevisveis. A princpio, o fato da sra. Kate Burnett estar repousando mais serenamente pode ser encarado de vrias formas. Quanto a mim, prefiro a interpretao mais otimista de todas.
	E que interpretao seria essa, senhorita?  Richard indagou, ansioso.
	Talvez a sra. Kate Burnett estivesse sendo perturbada por alguma preocupao, em seu subconsciente. E agora, que essa preocupao acabou, ela pode repousar melhor. Isso naturalmente aumentar sua possibilidade de recuperao.
	Certo  Richard assentiu, pensativo. Hesitou por alguns instantes, mas atreveu-se a indagar:  E qual seria a interpretao mais pessimista, senhorita?
A enfermeira Diane ficou em silncio, como se relutasse em responder a pergunta. Por fim, declarou:
 Seria acreditar que essa aparente serenidade da sra. Kate Burnett , na verdade, uma tendncia a um estado de coma profundo.
	Oh, no!  Richard reagiu, horrorizado.  No pode ser.
	Concordo com o senhor. Se a paciente estava se debatendo, hoje de manh, e agora dorme serenamente,  porque melhorou.  Com um sorriso encorajador, Diane concluiu:  Vamos esperar para ver, sr. MacNeal.
	Esperar para ver  Richard repetiu, com um profundo suspiro.  Parece que esta  a frase preferida de todo mundo, por aqui.
	Sinto muito, mas s podemos interferir at determinado ponto. Fazemos nossa parte e, o resto,  esperar pelo melhor.
	A senhorita tem toda razo  Richard reconheceu, comovido.  Bem, agora gostaria de ver Kate Burnett.
	Claro. O senhor j sabe o caminho, no?
	Sim.  Richard estendeu-lhe a mo.  Muito obrigado. A propsito, depois de visitar Kate, eu gostaria de falar com o mdico responsvel por ela.
	Claro. O senhor no ter dificuldade de encontr-lo.  Um tanto tmida, a enfermeira confidenciou:  Sabe, ainda hoje ns estvamos comentando que Kate Burnett tem sorte de contar com um namorado to dedicado quanto o senhor.
Richard sorriu, emocionado. Mas fez questo de esclarecer:
	Eu... no sou namorado de Kate.
	No?  Diane repetiu, surpresa.  Mas o modo como a olha e conversa com ela...
	Somos apenas bons amigos  Richard replicou.
	Certo.  Embaraada, Diane desculpou-se:  Nesse caso, queira perdoar-me pelo mal-entendido.  que a sra. Andersen disse...  Interrompeu-se e, por fim, concluiu:  Bem, no importa. O que realmente conta  o profundo lao que existe entre vocs.
	Com certeza  Richard concordou e despediu-se.  No vou mais tomar seu tempo, senhorita. Alm disso, preciso ver Kate.
	Claro. At logo, sr. MacNeal.
	At.  E Richard afastou-se pelo corredor, em direo  unidade de terapia intensiva.
Enquanto caminhava, pensava nas palavras da sra. Andersen.
"Quem poder prever os caprichos do destino...?"
Era incrvel. Tanto ela quanto Diane haviam interpretado erroneamente sua relao com Kate Burnett. Mas, tambm, o que poderiam pensar?
Se soubessem da verdade, com certeza ficariam perplexas.
Por um momento, Richard deixou que os pensamentos corressem soltos... Imaginou como seria sua relao com Kate, quando ela despertasse. E, depois, quando se recuperasse. Acabariam se tornando amigos? Era bem possvel que sim. Afinal, ele no ia querer ficar longe do pequeno Jonathan por muito tempo... Alm do mais, tinha lhe prometido que poderia nadar na piscina do condomnio, to logo chegasse o vero.
Entregue a essas divagaes, Richard aproximou-se da sala de vidro, onde Kate dormia seu sono misterioso.
A viso daquele corpo frgil, do rosto plido, circundado por uma cabeleira loira e sem brilho, abateu-o como um duro golpe.
As cenas alegres que ele havia projetado, na mente, desvaneceram-se como que por um triste passe de mgica.
A realidade estampava-se, dura e cruel,  sua frente. Mas Richard no queria entregar-se  tristeza. No naquele momento, quando precisava de toda sua energia para trazer Kate para o lado de c da vida.
Pouco depois, ele se aproximava do leito, contemplando-a com um misto de ansiedade e ternura.
 Como vai, Kate Burnett? Aqui estou eu, novamente. Antes de mais nada, quero dizer que Jonathan est bem. Quando perguntei-lhe se tinha algum recado para voc, ele respondeu: "Diga  mame que estou mandando um caminhozinho cheio de beijos para ela." No  comovente?
Richard calou-se e fitou Kate, como se esperasse que ela abrisse os olhos e respondesse: "Sim, de fato  comovente."
Por fim, meneou a cabea:
 Aqui estou eu, de novo, sonhando com o impossvel. Mas algum dia j no terei de fazer esses monlogos. Algum dia voc despertar e ento conversaremos longamente. Espero que esse momento no custe muito a chegar.
Richard teve a impresso de que as plpebras de Kate se mexiam. Com a respirao suspensa, ele aguardou por um milagre... Mas nada aconteceu.
Tomando a mo de Kate entre as suas, observou-a por um bom tempo. Era uma mo esguia e delicada. Mas estava fria. E ele friccionou-a suavemente, para aquec-la.
Depois, fixou a ateno no rosto de Kate. Mesmo assim, to plida e aparentemente sem vida, aquela mulher era bela. Tinha os lbios finos e bem delineados, o nariz arrebitado, a testa larga, o queixo bem-feito.
Quanto aos olhos, Richard j os conhecia... Eram os mais belos e profundos olhos verdes que ele j vira, em toda sua vida.
Um misto de pena e ternura instalou-se em seu corao.
	Quem  voc, Kate Burnett? Ou melhor: quem era voc, at antes do acidente? O que pensava ou sentia? Que tipo de planos costumava fazer, para o futuro? Que forma de lazer preferia? Como era sua rotina diria? Jonathan j me falou muito sobre vocs dois. Contou-me vrios fatos e, por a, pude deduzir jue voc  uma pessoa cordata, alegre, sempre pronta a ajudar os outros, embora no goste de pedir nada a ningum.  Richard fez uma pausa.  Entretanto, voc me pediu um favor... Que procuro cumprir da melhor forma possvel. E, para ser franco, acho que estou me saindo bem.  Sorrindo, acrescentou:  Tambm, Jonathan  uma criana maravilhosa. Na verdade, no sei quem est tomando conta de quem... Se eu e mame cuidamos dele, ou ele de ns.
	Com licena, sr. MacNeal.  Diane entrou na sala, para tratar de Kate.  D-me apenas um minuto, sim?
	Claro.  Richard afastou-se do leito. Com uma expresso penalizada, observou a enfermeira medicando Kate, com extrema delicadeza e habilidade.
Pouco depois, Diane saa.
Richard voltou a aproximar-se do leito. Estava arrasado. Uma coisa era ver Kate deitada, imvel. Outra, era v-la sendo manipulada, sem esboar nenhuma reao.
Acariciando-lhe o rosto delicadamente, Richard murmurou:
 Dizem que, neste mundo, nada acontece sem um motivo. Dizem, tambm, que existe uma coisa chamada livre-arbtrio, ou seja: a liberdade de escolher o que queremos, em cada situao. Mas se essas afirmaes so verdadeiras, Kate... Por que razo eu fiz isso a voc?  Ele engoliu em seco.  Acabo de me lembrar de outro provrbio: "H males que vm para bem." Mas que tipo de bem poder advir do fato de voc estar inconsciente neste leito de hospital?
Com a ponta do dedo indicador, Richard desenhou-lhe a linha arrebitada do nariz, o contorno dos lbios, o queixo.
 Voc  to jovem e bonita, alm de uma me maravilhosa. J disse que voc fez um lindo trabalho, com Jonathan. Mas gosto de repetir essa verdade. Ele  to encantador, inteligente, bonito, alegre e espirituoso...
A voz de Richard fraquejou, no final da frase.
 Sabe de uma coisa, Kate Burnett? Eu  quem deveria estar aqui, inconsciente, neste leito. Afinal voc tem, no pequeno Jonathan, um grande motivo para viver. Quanto a mim...
Richard interrompeu-se. Quase ia dizendo que no possua razes para estar vivo. Mas calou-se, a tempo de evitar uma injustia.
Pensando bem, no era verdade que sua vida no tinha sentido... Ele possua Alice que, alm de me, era uma boa amiga. Mas j no tinha esposa. E nem chegara a ser pai.
 Ser que foi por isso que voc surgiu em meu caminho, Kate? Para me lembrar de que as maiores riquezas do mundo so impalpveis, como por exemplo... o amor entre as pessoas? Sabe de uma coisa? Andei to atribulado, nos ltimos anos, que mal tive tempo para dar ateno a minha me. Se ela no fizesse questo de me visitar aos domingos, eu certa mente passaria meses sem v-la.  Assumindo um tom confidencial, Richard aproximou ainda mais o rosto do de Kate.  Agora, vou lhe contar um segredo. Voc quer ouvir?
Aguardou por um instante, como estivesse dando tempo, a Kate, para pensar numa resposta.
 Bem, suponhamos que voc tenha dito sim... Aqui vai o segredo: minha me me criou praticamente sozinha. Tal como Jonathan, eu tambm no tive um pai... No como deveria, entende?
Por um instante, Richard se lembrou de que quando era criana costumava perguntar a Alice sobre o pai. Por que ele no ia busc-lo na escola, no final do dia, como os pais dos outros garotos? Por que no o levava ao futebol, ao cinema, ao clube? Onde ele estava, afinal?
 Seu pai no pode estar conosco, filho.  Essa era sempre a resposta de Alice.  Voc acha que, se ele pudesse, no estaria a nosso lado?
Quando Richard ficara maior, Alice certo dia o chamara para conversar. Contara-lhe, ento, que o pai certo dia sara de casa e nunca mais voltara. Tempos depois, enviara-lhe uma carta, dizendo que no a amava mais e que no poderia ajud-la a cuidar do beb.
Desesperada, Alice resolvera lutar. E conseguira vencer a dura batalha de criar um filho... sozinha.
 Vou lhe contar outro segredo, Kate...  ele prosseguiu.  Desde que ocorreu a maior  tragdia de minha vida, trs anos atrs, no fiz outra coisa seno tentar esquecer. Atirei-me ao trabalho como um nufrago a uma tbua de salvao. Tudo isso para no pensar, no lembrar... S agora percebo que, nessa desesperada tentativa, acabei deixando de lado essas riquezas impalpveis de que lhe falei h pouco. Mas desde ontem, quando provoquei o acidente que a jogou nesta cama, tudo voltou  tona. No nego que seja doloroso, mas acho que eu precisava disso, sabe? Precisava repensar a importncia do afeto, da solidariedade, do respeito... Essas palavras que andam em desuso, no mundo atual.
De sbito, a expresso de Richard tornou-se sombria.
 Sim, foi muito bom, para mim, essa reflexo. Mas no queria que ela ocorresse  custa de sua... vida.
To logo concluiu a frase, Richard arrependeu-se.
 Que tolice estou dizendo? Voc no se foi. Voc ainda est aqui... No  mesmo, Kate?
Sim.
Ele arregalou os olhos azuis, numa expresso de espanto, enquanto seu corao disparava.
Poderia jurar que tinha acabado de ouvir a palavra sim, com muita clareza. S no sabia dizer se a escutara com os ouvidos... ou com o corao.
 Ser que fiquei maluco de vez, Kate? Se voc estiver ciente de minha presena, certamente me achar um idiota.
Richard ficou em silncio por alguns instantes, enquanto seus olhos perscrutavam o rosto plido de Kate.
No, ele decidiu, em pensamento. Aquela mulher no havia se mexido e muito menos pronunciado qualquer palavra.
Ele era quem estava imaginando coisas.
 No sei se devo continuar vindo visit-la, Kate. Ser que estou lhe fazendo bem, com minha presena? Segundo as enfermeiras, sim. Mas, de verdade, o que estarei lhe causando... Afora o mal que j lhe fiz? Pois sei que a culpa foi minha. Se eu no tivesse demorado tanto para me recuperar do susto que aquele garoto com a bicicleta me pregou...
Um profundo suspiro brotou do peito de Richard.
 Minha me costuma dizer que nunca se deve fazer conjeturas sobre o que poderia ter sido. Se eu houvesse partido logo depois daquele susto... Se voc no houvesse entrado naquela rua... Se tudo fosse diferente... Bem, acho que mame tem razo. Mesmo porque,  intil cogitar sobre isso. A realidade  to mais definitiva do que qualquer sonho ou imaginao.  Richard fez uma pausa.  Mas do que  mesmo que eu lhe falava, Kate? Ah, sim, sobre minhas visitas. Acho que vou continuar vindo, sabe? Ouvi falar de pessoas que ficaram inconscientes por um bom tempo. E embora no dessem sinais de vida, tinham noo do que se passava a sua volta. Percebiam, sobretudo, a presena do ser amado. Li sobre um homem que ia visitar a esposa em coma, no hospital, todos os dias. Falava-lhe longamente, como se ela estivesse desperta e pudesse ouvi-lo, at mesmo responder. Pois sabe que certo dia, contra todas as expectativas, a mulher acordou para a vida? E chegou a lembrar-se de muitas coisas que o marido havia lhe dito, durante o coma?
Richard passou a mo nos cabelos negros, num gesto de desalento e cansao.
 Entretanto, nossa situao  bem diversa. Essa estratgia de conversar longamente serve para quando as pessoas so unidas por um lao de amor. Mas e quanto a ns, Kate Burnett? Nem sequer nos conhecemos, no  mesmo?  Um sorriso insinuou-se nos lbios de Richard.  O mais incrvel  que h momentos em que sinto que a conheo... Ou, ao menos, que estou comeando a conhecer. Talvez isso acontea por causa de Jonathan que, afinal,  o nosso elo. E tambm por causa de tudo que ele me contou a seu respeito. E por falar em Jonathan...
Num tom mais alegre, Richard narrou o passeio que tinha feito naquele dia, com Jonathan e Alice, ao parque municipal da cidade. Contou sobre as brincadeiras, a alegria do garotinho ao ver os peixes coloridos no lago de guas lmpidas, ao brincar no playground, ao passear em um pnei. Falou sobre o almoo numa cantina italiana e no imenso sorvete que Jonathan havia tomado, no final da refeio.
A enfermeira Diane bateu no vidro. Richard voltou-se e ela lhe fez um sinal, indicando que o horrio de visitas estava chegando ao fim.
Ele assentiu com um gesto de cabea e voltou a fitar Kate.
 Preciso ir, agora.  Delicadamente, acariciou-lhe os cabelos e o rosto.  Trate de ficar bem, sim? Eu, Jonathan e Alice estamos torcendo por voc.
Richard fez meno de afastar-se, mas interrompeu o gesto. Tinha se esquecido de algo importante, que queria contar a Kate. Bem, talvez ainda desse tempo...
	Preciso comprar roupas novas para Jonathan. Emprestei-lhe uma camiseta minha, para dormir. Mas hoje, no passeio, ele teve de usar as mesmas roupas de ontem, que alis esto necessitando de uma lavagem, urgente. Hoje mesmo propus a ele que fssemos a um shopping. Mas Alice j o havia convidado para passear no parque. E adivinhe o que Jonathan preferiu? Muitas crianas, em seu lugar, agiriam de modo contrrio. Ele, porm, estava mais interessado em conhecer o parque, do que em ganhar roupas novas. Mas amanh tomarei essa providncia. Estou pensando em marcar um encontro com mame e Jonathan, por volta da hora do almoo. Assim, iremos at um shopping e...
	Final da visita, sr. MacNeal  a enfermeira Diane anunciou, entrando na sala.
	J estou indo, senhorita.  E diante da expresso comovida da enfermeira, Richard inclinou-se e beijou Kate na testa.  At amanh, querida.
At..
Richard voltou-se rpido para Diane:  A senhorita ouviu isso?
	O qu, sr. MacNeal?
	Parece que Kate disse: "At...".
Com um sorriso cheio de compreenso, a enfermeira opinou:
	Talvez tenha sido apenas impresso sua, sr. MacNeal.
	Talvez  Richard repetiu, com uma expresso de desalento.  Por um momento, pensei ter escutado...
	Isso acontece  Diane o interrompeu. E como se quisesse consol-lo, acrescentou:  Ou quem sabe ela respondeu, sim. Quem sabe se ela no tentou se comunicar, em pensamento, com o senhor?
	A senhorita acredita nisso?  Richard indagou, tristemente.
A enfermeira levou alguns instantes para responder:
 Dois anos atrs, antes de comear a trabalhar aqui, eu era uma pessoa muito prtica e objetiva. No dava muita importncia s coisas impalpveis, sem explicao. Mas depois de tudo que vivi neste hospital, sr. MacNeal, j nem sei o que pensar. Vi pessoas desenganadas pelos mdicos voltarem  vida. Vi pessoas muito fortes e vigorosas sucumbirem depois de uma simples cirurgia de garganta. E cheguei a uma concluso: no existe nada definitivo, neste mundo. Tudo pode acontecer, tudo pode mudar a cada instante.
Richard a fitava com franca admirao. E Diane continuou, lanando um olhar terno para Kate:
 Se o senhor a ouviu responder,  porque de algum modo isso aconteceu... mesmo que seja apenas em seu corao.
Richard sorriu.
	As enfermeiras deste hospital tm convnio com os anjos?  perguntou, emocionado.
	Por que diz isso, sr. MacNeal?
	Ora, porque vocs no cuidam apenas do corpo dos pacientes, mas tambm da alma dos acompanhantes... E isso requer muita sabedoria.
Diane sorriu de volta.
	Bondade sua...  Piscando-lhe um olho, acrescentou:  Agora, vou sair da sala, para que o senhor possa ficar mais um pouquinho com sua namorada, est bem? Levarei cerca de cinco minutos para voltar.
	Obrigado.
Diane saiu, deixando-o novamente a ss com Kate Burnett.
 Voc viu?  Richard disse, baixinho.  No adianta dizer a elas que sou apenas um amigo. Acho que nos elegeram namorados, por unanimidade.
Ao sair do Baptist Hospital, naquela noite, Richard sentia-se invadido por um novo alento. E tinha motivos para isso. Motivos que bem poderiam ser enumerados: a solidariedade das enfermeiras, a presena de Jonathan e Alice em seu dia a dia e, sobretudo, a certeza de que Kate de algum modo o compreendia...
A situao continuava delicada. Kate Burnett permanecia em estado de choque. O futuro ainda era uma incgnita. Mas Richard sentia a vida pulsar de um modo diferente.
Depois de tanto tempo, a esperana vinha de novo habitar seu corao sofrido.

CAPTULO V

At que enfim voc chegou!  a secretria exclamou, aliviada, assim que Richard entrou em seu escritrio da Data Enterprises, na manh de segunda-feira.  Graas a Deus!
Richard fitou-a com estranheza:
	O que houve, Charlene?
	O que houve?  ela repetiu, levantando-se da cadeira e contornando a mesa de trabalho. Aproximou-se de Richard com a mo sobre o peito e uma expresso dramtica.  Eu  que pergunto o que aconteceu.
	Nada  Richard respondeu, simplesmente.  Por qu?
Naquele momento Chester Bradon bateu  porta do escritrio entrou. Era o brao direito de Richard, na empresa. Ambos trabalhavam juntos desde que Richard fundara a Data Enterprises, anos atrs. Entendiam-se perfeitamente bem, no apenas no campo profissional, mas tambm no pessoal. Tanto, que Richard o considerava como um bom amigo.
	Graas a Deus!  Chester Bradon exclamou, ao v-lo.  Eu j estava pensando em tomar uma providncia.
	Como assim?  Richard indagou.
	Pensei em ligar para delegacias, hospitais...
	Vocs andam assistindo a muitos filmes de suspense, ultimamente  Richard comentou, olhando de um para o outro.
	 mesmo?  Chester franziu o cenho.  Pois o que voc faria, se estivesse em meu lugar?
	Sei l  Richard respondeu, tirando o palet do terno cinza-chumbo que usava. Com um sorriso zombeteiro, provocou-o.  Mas certamente no faria todo esse drama...
	Ele acha que estamos exagerando, Chester  a secretria interveio.
Charlene Stone era uma mulher de extica beleza, de cabelos ruivos, muito curtos. Richard a contratara havia dois anos, por indicao de Chester. Estava satisfeito com sua competncia e dedicao  empresa.
Outro fator que o agradava em Charlene era o fato de ela ser espirituosa e bem-humorada. Em uma empresa, uma pessoa que sabia aliar o bom humor  eficincia era muito preciosa.
Por isso Richard estava estranhando a atitude de Charlene. Nunca a vira assim, antes.
 Voc sempre chega a este escritrio antes de qualquer outra pessoa  ela afirmou.  Todos os dias da semana, todas as semanas do ms, todos os meses do ano... Sempre foi assim. Voc vem mais cedo, prepara o caf e, quando o primeiro funcionrio chega, j o encontra em plena atividade.  Com as mos na cintura e uma expresso exageradamente severa, que chegava a parecer cmica, Charlene o repreendeu:  E voc ainda acha que no deveramos nos preocupar? Imagine qual no foi minha surpresa quando cheguei aqui e encontrei a porta da empresa fechada!
Richard olhou da secretria para Chester, antes de argumentar:
	Vocs dois tm as chaves da porta principal e de todos os escritrios, lembram-se?
	Sim, mas acontece que nunca as utilizamos  Chester respondeu.  Eu, por exemplo, nem sequer carrego o chaveiro comigo. Deixo-o em casa, muito bem guardado.
	Pois no deveria.
 Ora, aquelas chaves nunca tiveram utilidade, para mim. Como Charlene disse muito bem, ns sempre encontramos a empresa aberta e, voc, a postos.
Richard voltou-se para a secretria.
	Voc tambm costuma deixar suas chaves em casa, Charlene?
	No, chefinho  ela respondeu, retomando seu bom humor habitual. Agora, que estava mais calma, voltava a ser a Charlene de sempre. Apontando Chester, com ar zombeteiro, declarou:  Ao contrrio desse negligente, nunca tirei aquele chaveiro da bolsa.
	Apenas, houve um problema.  Chester devolvia a provocao.  Tivemos de esperar horas, at que Charlene encontrasse as chaves no fundo de sua bolsa.
	Horas!  ela repetiu, fingindo-se ofendida.  Mentira dele, chefinho. Levei apenas alguns minutos para ach-las.
	Se voc soubesse o bazar que Charlene carrega naquela bolsa, meu caro!  Chester continuava, em tom de brincadeira.  H de tudo ali dentro. Sempre ouvi falar que bolsa de mulher  uma das coisas mais misteriosas que existem, mas hoje tive a comprovao.
	Exagerado!  Charlene o repreendeu, rindo. E voltou-se para Richard.  No d ouvidos a ele, chefinho. Chester s inventou essa mentira porque est com inveja de mim. Afinal, se eu no houvesse trazido as chaves, estaramos todos na porta da rua, at agora.
	Isso l  verdade  Chester admitiu. Em um tom mais srio, dirigiu-se a Richard.  Mas, francamente, ficamos bastante preocupados com seu atraso.
	Voc bem que poderia ter nos avisado sobre isso, no acha, chefinho?
	Sim, Charlene  Richard reconheceu.  Voc tem razo. Mas, tambm, a coisa no  para tanto. Ser que o chefe no tem o direito de chegar mais tarde, de vez em quando?
	Lgico que sim  Charlene concordou.  Mas no custava dar um telefonema, ou enviar um e-mail, avisando...
O fato era que Richard no tivera tempo para isso. Havia acordado cedo e tomado um breve desjejum com o pequeno Jonathan. Depois, levara-o at a casa de Alice, que alis lhe fizera uma proposta:
	Estou pensando em ficar em seu apartamento, por alguns dias. Assim, ambos poderemos cuidar melhor de Jonathan. Para voc ser muito cansativo traz-lo e busc-lo todos os dias, em minha casa. E creio que para ele tambm.
	tima idia, mame. Arrume suas coisas, que eu virei apanh-la  noite, juntamente com Jonathan.
	No se preocupe, querido. Eu mesma cuidarei disso sozinha. Afinal, tenho meu prprio carro, lembra-se? Irei para seu apartamento, com Jonathan, assim que arrumar minhas coisas.
	Perfeito, mame. No se esquea de levar as chaves, est bem?
	Santo Deus... s vezes voc me trata como se eu fosse uma invlida.  Sorrindo, Alice o beijara carinhosamente.  Tenha um bom dia, filho.
	 Obrigado, mame. Ns nos veremos  noite, em meu apartamento.
Richard despedira-se do pequeno Jonathan e ento fora para o hospital.
Kate continuava na mesma. No havia apresentado nenhuma outra melhora, desde a noite anterior. Mesmo assim, ele tinha lhe falado longamente sobre Jonathan. Encorajara-a com as mais doces palavras que pudera encontrar e, depois, conversara com o dr. Silverstein.
O mdico era da mesma opinio que a enfermeira Diane. Julgava ser melhor esperar, para ver se Kate reagia. Afinal, ela estava sendo tratada com toda a dedicao e eficincia possveis. No havia muito mais a fazer, seno ter f em sua recuperao.
Depois de se despedir do mdico, Richard tinha procurado a sra. Andersen. Convidara-a para tomar um caf, na cantina do hospital. Bastara alguns minutos de conversa com aquela mulher bondosa e sbia, para que ele se sentisse mais animado. Somente depois de tudo isso, Richard dirigira-se  empresa.
	Bem, j chega de cobranas.  A voz de Chester trouxe-o de volta ao momento presente.  O fato  que gostamos muito de voc e por isso nos preocupamos.
	A propsito, qual foi o motivo de seu atraso, chefinho?  Charlene indagou.  Est tudo bem?
Em poucas palavras, Richard narrou o acidente ocorrido no sbado. Falou sobre o pequeno Jonathan e a promessa que fizera a Kate. Contou tambm o arranjo que havia feito com Alice, para que ambos pudessem cuidar do garotinho.
No final da narrativa, Charlene e Chester o fitavam entre penalizados e constrangidos.
	Sou mesmo uma grande idiota!  Charlene recriminou-se.  J estou profundamente arrependida por ter cobrado seu atraso, chefinho. Prometa que vai me desculpar, sim?
	Ora, que bobagem, menina  Richard respondeu, num tom compreensivo.  Como voc poderia saber do que realmente aconteceu?
	Eu devia ter imaginado que voc no se atrasaria  toa... Vamos, diga que me perdoa.
	Tambm peo desculpas  Chester declarou.
	No tenho por que desculp-los. E, agora, vamos ao trabalho.
	Isso mesmo, chefinho  a secretria assentiu, emocionada.  Olhe, se precisar de mim para cuidar do garotinho, ou para qualquer outra coisa,  s dizer.
	Obrigado, Charlene.
	Voc sabe que pode contar comigo, tambm  Chester afirmou.
	Claro.  E Richard agradeceu novamente.  A propsito, preciso avis-los de uma coisa...
	Sim?  ambos disseram, quase ao mesmo tempo.
	Minha rotina aqui na empresa vai mudar, por algum tempo.  E Richard explicou:  Virei a esta hora, todas as manhs, enquanto Jonathan estiver em minha casa. Talvez chegue at mais tarde, caso tenha de me demorar no hospital.
	Faa como quiser e no se preocupe com o andamento do trabalho  disse Chester.  Eu, Charlene e os outros funcionrios tentaremos dar conta de tudo, por aqui.
	Tenho certeza disso  Richard declarou, comovido.  Ah, ia me esquecendo de dizer que farei duas visitas dirias, a Kate. Sairei todas as tardes, pouco antes das cinco, para v-la. De l, seguirei diretamente para casa.
	Voc sabe que estamos aqui para o que der e vier, chefinho  Charlene o interrompeu.
	Sim, garota  Chester interveio.  Voc j disse isso, lembra-se?
Com os olhos marejados de lgrimas, Charlene respondeu:
	Eu sei. Mas toda essa situao  to triste... Gostaria de fazer alguma coisa para ajudar.
	Ento, continue sendo a pessoa espirituosa de sempre  Richard pediu.  Mais do que nunca, precisamos de um pouco de alegria, por aqui.
	Vou tentar.  E Charlene saiu da sala, em direo ao toalete.  Com licena, pessoal.
A ss com Richard, Chester fitou-o com pesar.
 No sou muito bom, nessas horas, amigo. Mas...  No  preciso dizer nada.  Richard tocou-lhe o ombro.  Sei que posso contar com vocs e isso  o que mais necessito, agora.  Forando um sorriso, props:
 Vamos trabalhar? J chega de conversa fiada.
 Vamos  Chester aquiesceu, sorrindo de volta.
 Voc  uma pessoa muito forte, Richard.
	Apenas tento me manter em p, amigo.
	Nada disso. Voc  de fato uma fortaleza.
	E tenho outra opo?
	Teria... Mas, ento, voc j no seria o Richard MacNeal que conheo.
	E que opo seria essa?
	Esquecer Kate Burnett e o menino. Afinal, voc j fez sua parte, socorrendo ambos.
	Eu jamais seria capaz de ignor-los.
	Nem eu, tampouco, mas nem todo mundo pensa assim.  Chester fez uma pausa, antes de concluir:
 A solidariedade anda em falta, no mundo de hoje.
	Por isso mesmo  preciso cultiv-la, cada vez mais.  Richard levou a mo  testa.  Santo Deus!
	O que foi?
	Estamos falando em solidariedade... E eu me esqueci completamente de algo muito importante.
	Do qu?  Chester indagou, aflito.
	De telefonar para um homem que tambm poderia ignorar tudo o que houve, mas que est muito preocupado com Kate e o pequeno Jonathan. Puxa vida, ele me deixou um bilhete, no painel do jipe, pedindo que entrasse em contato... E eu me esqueci!
	Quem  esse homem, afinal?
	O motorista da caminhonete que bateu no Escort de Kate.  E Richard correu  porta que separava sua sala particular da de Charlene.  Preciso ligar para ele agora mesmo. Felizmente, guardei o carto em meu porta-documentos. Com licena, Chester.
	Claro, amigo.
Richard entrou em sua sala e pendurou o palet no gancho de um antigo porta-chapus que ficava prximo  porta. Retirou seu porta-documentos do bolso do palet e sentou-se  mesa de trabalho.
No tardou a encontrar o carto do veterinrio Charles Albert Oak, que continha vrios nmeros de telefone: o de sua residncia e trs nmeros comerciais.
Richard consultou o relgio. Eram quase dez horas da manh. Portanto, Charles Albert devia estar trabalhando, ele deduziu.
Ligou para um dos nmeros comerciais e logo foi atendido, por uma voz feminina:
	Clnica Veterinria Oak, bom dia. Em que posso servi-lo?
	Meu nome  Richard MacNeal. Gostaria de falar com o dr. Charles Albert Oak, por favor.
	Um momento, sim? Vou ver se ele pode atender.
	Diga-lhe que se trata de um assunto importante, senhorita.
	Est bem. Queira aguardar.
Richard esperou por quase trs minutos, antes que uma voz masculina, que ele logo reconheceu, atendesse.
	Pois no?
	Dr. Charles Albert Oak, aqui  Richard MacNeal, o motorista do jipe azul que...
	Graas a Deus!  o veterinrio exclamou, interrompendo-o.  Eu j estava comeando a pensar que o senhor no me procuraria.
	Perdoe a demora. Mas passei um fim de semana atribulado, cuidando do pequeno Jonathan e...
	Ento o senhor est com o menino?
	Sim.
	E quanto  me... Ela sobreviveu?  A voz de Charles Albert traa uma forte ansiedade.  Por favor, diga que sim.
	Bem, ela ainda se encontra em estado de choque. Mas apresentou uma ligeira melhora. E seus sinais vitais esto respondendo aos estmulos.
	E o que os mdicos acham disso?
	No podem dizer nada, por enquanto.
 Era o que eu imaginava. Quando uma pessoa entra nesse estado, j no se pode prever o que acontecer. Tanto  possvel que acorde de uma hora para a outra, como...
O dr. Charles Albert Oak no concluiu a frase. Mas Richard compreendia o que ele queria dizer.
	Por favor, mantenha-me informado  Charles Albert pediu, aps alguns instantes de silncio.
	Certo. Eu farei isso.
	A propsito, onde est a moa?
	No Baptist Hospital.
	Gostaria de v-la.
	Temo que isso no seja possvel, ao menos por enquanto. Afinal, ela se encontra na unidade de terapia intensiva...
	Entendo  Charles Albert aparteou.  Nesse caso, os pacientes s podem receber visitas das pessoas mais prximas.
Richard sorriu, entre comovido e melanclico. Pelo visto, todo mundo o considerava a pessoa mais prxima de Kate Burnett. Por que seria?
	 curioso...  Charles Albert comentou.  No sbado, quando tudo aconteceu, julguei que o senhor no conhecesse a moa, nem o menino.
	De fato, isso  verdade.  E Richard explicou:
 Toda essa situao  por demais singular. Kate acabou de chegar a Memphis e no conhece ningum, por aqui. Na hora em que entrei no Escort, depois de deixar o menino a seus cuidados, tentei falar com ela...
 Kate Burnett  Charles Albert o interrompeu.
 Ento  este o nome da moa?
	Sim. Ela chegou a recuperar a conscincia, por um breve instante. E pediu-me que cuidasse do filho.
	Essa foi a primeira vez em que se viram?
	Exato.
	Incrvel!  Charles Albert exclamou, impressionado.  De algum modo, ela sentiu que podia confiar no senhor.
	Justo em mim, que provoquei o acidente  Richard comentou, com amargura.
	Espere um momento, sr. MacNeal...
	Sim?
	No creio que o senhor seja culpado pelo que aconteceu.
	Mas sou. E o senhor nem imagina o quanto isso me di.
	Nesse caso, eu tambm deveria me sentir assim. Afinal, fui eu quem bati no Escort daquela moa, fazendo-o rodopiar e se chocar contra o poste.
	Isso no teria ocorrido, se eu tivesse desimpedido a rua a tempo.
	Ah, pare de se torturar, sr. MacNeal. Ningum  culpado de nada, afinal. Certas coisas simplesmente acontecem, sem que possamos evit-las.
	Tem razo  Richard concordou, apenas por polidez. No fundo, continuava se sentindo culpado pelo sofrimento de Kate.
	Alm do mais, o remorso no conduz a lugar algum. O senhor est fazendo tudo o que pode, pela moa e pelo menino. Tenho certeza de que quando acordar ela lhe ser muito grata.
	Se ela acordar  Richard frisou, invadido por um sbito temor.
	 preciso ter f, sr. MacNeal Vamos pensar de maneira positiva e enviar uma boa energia quela moa.
	No tenho feito outra coisa, desde sbado. Mas, s vezes, me sinto enfraquecer.
	Isso  muito natural, sr. MacNeal. Todas as pessoas fortes tm seus momentos de cansao.  Charles Albert fez uma pausa.  Bem, no vou mais tomar o seu tempo. S peo que me mantenha informado sobre o estado da moa. Alis, quero visit-la, assim que ela sair da unidade de terapia intensiva. E sei que isso no vai demorar muito.
	Eu o avisarei, pode deixar. Obrigado por seu otimismo e apoio, doutor.
	Eu que agradeo. Tenha um bom dia.
	O mesmo para o senhor. A propsito, anote meu telefone.
	Pode dizer, sr. MacNeal.
Richard deu-lhe o nmero de sua casa e da empresa. Quando desligou o telefone, sentia-se tomado por um novo alento. O otimismo de Charles Albert o havia ajudado.
Alis, ele vinha recebendo apoio de vrias pessoas, naquele momento to difcil.
Trs anos atrs, quando perdera Stacy e o beb, as coisas eram bem diferentes. Ou talvez ele prprio no estivesse preparado para receber as demonstraes de solidariedade das pessoas. Talvez fosse isso.
O interfone tocou, fazendo com que Richard estremecesse da cabea aos ps. Apesar de tudo, ainda continuava bastante tenso, ele concluiu, enquanto atendia:
	Pois no, Charlene?
	Sua me est na linha B.
	Complete, por favor.
	Est bem. Pode pegar.
A luz da tecla B do telefone acendeu-se. Richard pressionou-a e recebeu a ligao:
	Filho?
	Ol, mame. Voc j est no apartamento?
	Ainda no. Mas j arrumei minha valise.
	timo. Como vo as coisas, por a?
	Muito bem. Estou ligando para falar sobre uma idia que eu e Jonathan tivemos...
	Sim?  Richard sorriu.  Do que se trata?
	Estamos pensando em ir ao shopping. Compraremos roupas e calados para Jonathan e, depois, esperaremos voc para almoar. O que acha?
	Mas no amos fazer essas compras juntos?
	Sim, mas isso levaria tempo. E voc s tem uma hora e meia de almoo, filho. Por isso, decidimos cuidar das compras sozinhos. Faremos isso agora e depois desfrutaremos de sua adorvel companhia, num almoo bem saboroso. E ento, o que me diz?
	Estou inteiramente de acordo  Richard respondeu, esquecendo-se momentaneamente de todo o sofrimento.  Sabe de uma coisa? Vocs formam uma tima dupla.
	Contarei isso a Jonathan  Alice afirmou, alegremente.  Agora, vamos combinar o local do nosso encontro.
	Bem, vocs podem me esperar na porta principal do shopping. Passarei por l de carro, para apanh-los.
	E depois, aonde iremos?
	Que tal ao Yokota?  Richard sugeriu.
	Perfeito!  Alice aprovou, vibrando com a sugesto.
O Yokota era seu restaurante japons preferido.
	Ser que Jonathan gosta de comida japonesa?  Richard indagou, de sbito.
	Acho que sim. Pelo que pude perceber, esse anjinho come de tudo.
	Mesmo assim,  bom confirmar.
	Ento espere um momento, querido. Assim, voc mesmo perguntar a ele.
Logo em seguida, Richard ouvia a voz de Jonathan, do outro lado da linha:
	Oi, amigo.
	Ol, Jonathan. Tudo bem?
	Sim. Ns vamos ao shopping.
	J fiquei sabendo disso. Eu os apanharei mais tarde, para almoarmos.
	"T" bom.
	Estamos pensando em ir at o Yokota, que  um restaurante japons. Mas, antes, quero saber se voc gosta desse tipo de comida.
	Adoro. Sabe, desde muito pequeno mame me ensinou a comer de tudo.
Richard sorriu, ao repetir:
	Desde muito pequeno? Quer dizer que voc agora  muito grande?
	Eu vou fazer cinco anos. E j no sou uma criancinha.
Richard agora ria, entre divertido e emocionado. Uma pessoa jamais poderia ser infeliz, tendo um filho como Jonathan, ele pensou. Mentalmente, enviou um recado a Kate Burnett:
"Est vendo, menina? Voc precisa acordar logo, para cuidar desse anjo..."
	Sabe por que eu gosto de comida japonesa?  A voz entusiasmada do pequeno Jonathan interrompeu-lhe os pensamentos.
	Sim?  Richard indagou, curioso.
	Porque cada prato  colorido e bonito, como se fosse um brinquedo.
	Ento, est decidido, Jonathan. Almoaremos no Yokota.
	Oba!  o garotinho exclamou, entusiasmado.  Escute, sua me quer falar de novo com voc.  Aps uma pausa, ele indagou:  E por falar em mes, como vai a minha?
Richard fechou os olhos por um instante. O pequeno Jonathan sempre o pegava de surpresa, com essas perguntas comoventes.
	Ela est melhorando a cada dia, amigo.
	Verdade?
	Sim.
	Ento, por que no me deixam visitar...
	Porque ela ainda no saiu daquela sala de que lhe falei, Jonathan  Richard aparteou, no tom mais calmo que conseguiu.
	Quer dizer que mame ainda est naquela sala onde ficam as pessoas que precisam de muito remdio?
	Sim. Quando ela for para o quarto, voc poder v-la.
	E isso vai demorar?
	S alguns dias  Richard respondeu, lembrando-se das palavras da sra. Andersen, a respeito da noo de tempo das crianas.  At l, continuarei a visit-la e a levar seus recados para ela.
Um breve silncio se fez, do outro lado da linha. Ento Richard ouviu a voz de Alice.
	Filho, agora s falta combinarmos o horrio de nosso encontro.
	Que tal meio-dia e meia, na porta principal do shopping?
	Perfeito.
	Mame, como est Jonathan? Baixando o tom de voz, Alice respondeu:
	Chorando um pouquinho, filho. Mas isso  natural.
	No gosto de v-lo assim, mame.
	Mas no podemos evitar isso, querido. O choro  seu nico jeito de desabafar, de extravasar o medo que est sentindo, com a ausncia da me.
	Ser que no estamos dando o suporte emocional suficiente a Jonathan?
	Estamos lhe dando isso e muito mais. Apenas, voc no pode deixar de considerar um detalhe...
	Qual?
	O afeto de uma me  insubstituvel, filho. Por mais que faamos, no conseguiremos suprir a falta que ele sente de Kate.
	Voc tem razo, mame... Como sempre, alis.
	Bem, agora, preciso desligar. Quero ver se consolo um pouco esse anjinho. At mais tarde, filho. Um beijo.
	Outro, mame. Ah, s mais uma coisa...
	Diga.
	Voc est com dinheiro suficiente para fazer as compras?
	Claro. No se preocupe com isso.
	Est bem. Mas farei questo de reembols-la, depois.
	Nem pense nisso!  Alice recusou, categrica.
	Mas...
	Nada de mas, querido. Quero dar alguns presentes a Jonathan e posso muito bem arcar com os gastos.
	Certo  Richard cedeu.  Pelo que estou vendo, seria perda de tempo tentar demov-la dessa idia.
	Exatamente, meu bem. At logo.
	At.  E Richard desligou.

CAPTULO VI

Uma semana inteira se passou. Richard comeava a ter medo de perder a f na recuperao de Kate Burnett.
Todas as manhs e todas as noites ele a visitava, levando no corao uma esperana que se desvanecia, to logo entrava na sala da unidade de terapia intensiva, onde Kate continuava.
Ser que aquele pesadelo nunca mais terminaria?, ele se perguntava, nas horas de maior desnimo.
Depois, dizia a si mesmo que no podia fraquejar... Por Jonathan, por Kate, por tudo. Era preciso manter viva a chama da esperana, a qualquer custo.
Assim o tempo transcorria.
Certa tarde, a caminho do hospital, Richard resolveu passar comprar algo para Kate. Talvez fosse tolice pensar nisso, j que nem tinha certeza de que ela podia ouvi-lo... quanto mais admirar um presente!
De qualquer forma, ele resolveu seguir seu palpite.
Entrou em uma floricultura e uma vendedora apressou-se a atend-lo. Mas Richard avisou-a:
	Ainda no tenho certeza do que quero comprar. Portanto, d-me tempo de escolher, sim?
	Fique  vontade, senhor  ela respondeu, num tom solcito.  E se precisar de alguma orientao, conte comigo.
 Obrigado.
Por um bom tempo, Richard contemplou as muitas espcies de flores e folhagens ali expostas. A princpio, havia pensado num presente clssico: um ramalhete de rosas vermelhas, por exemplo. Ou um arranjo de orqudeas.
Depois, pensou que as flores pouco durariam. Talvez fosse melhor comprar algo diferente... Mas o qu?
Os olhos de Richard recaram sobre um vaso de gernios cor-de-rosa. O vaso, em si, j era uma obra de arte: tratava-se de uma pea de artesanato, decorada com motivos andinos.
	Este vaso  da Amrica do Sul?  Richard perguntou  vendedora.
	Sim, senhor. Mais precisamente de Cuzco, no Peru. Foi moldado e pintado pelos ndios.
	 muito bonito.
	Sem dvida alguma, senhor. E combinam perfeitamente com esses belos gernios..
Richard concordou, com um gesto de cabea:
	Muito bem, vou lev-lo.
	Certo, senhor.  A vendedora retirou o vaso da prateleira e colocou-o sobre um balco. Ajeitou-o em uma embalagem de papelo e celofane, muito bonita. Em seguida perguntou:  O senhor quer um carto, para escrever uma dedicatria?
Richard considerou a idia, mas acabou por refut-la.
	No, obrigado.
	Como queira, senhor. De qualquer forma, ela vai adorar.
	Espero que sim, senhorita...  Richard respondeu, perguntando-se como a vendedora reagiria, se soubesse para onde e para quem ele tencionava levar os gernios.
  para a sua namorada, ou esposa?  a vendedora indagou.
Richard sorriu:
	Digamos que seja para uma pessoa... especial.
	Talvez seja para sua noiva...  a vendedora insistiu.  Acertei?
	Voc faz muitas perguntas, mocinha.  Foi a resposta espirituosa de Richard.  Bem, quanto lhe devo?
Pouco depois, ele saa da floricultura, levando o vaso de gernios.
O horrio de visitas na unidade de terapia intensiva do Baptist Hospital tinha comeado havia dez minutos, quando Richard chegou.
	Pensei que o senhor no viesse mais  disse Diane, ao encontr-lo no corredor.
	Pois .  Richard saudou-a com um sorriso.  Hoje, s para variar, estou um pouco atrasado.
	Para variar mesmo. O senhor  sempre pontual.
	Bem, como vai Kate?
	Na mesma, sr. MacNeal. Teremos de esperar para ver, mas no podemos...
	Perder a esperana  Richard completou.  Era isso que ia dizer, no?
	Sim  Diane confirmou.  J perdi a conta de quantas vezes j repeti essa frase, desde que comecei a trabalhar aqui. E sabe com quem a aprendi?
	Com a sra. Andersen?
	Isso mesmo.
	Com quem mais poderia ser?  Richard comentou.  A sra. Andersen  uma pessoa muito bondosa e compreensiva. Vejo-a como uma espcie de anjo da guarda, que sempre chega no momento certo para consolar quem precisa.
Pois saiba que todas as enfermeiras daqui, bem como os pacientes e familiares, pensam da mesma forma.  Num tom confidencial e ao mesmo tempo divertido, Diane acrescentou:  Quem sabe se ela no  mesmo um anjo disfarado de gente?
	Quem sabe?  Richard repetiu, no mesmo hora.  E j que a senhorita tem bastante contato com a sra. Andersen, tente passar-lhe a mo nas costas, para ver se no percebe as asas sob o uniforme...
Ambos sorriram e Richard despediu-se:
	Bem, eu j vou indo.
	Isso mesmo, sr. MacNeal. No deixe a sra. Kate Burnett esperando...
	At parece que ela pode sentir minha falta...  Richard retrucou, num tom melanclico.
	Talvez sinta... quem sabe?
Richard voltou a sorrir, mas dessa vez com tristeza. E afastou-se em direo  sala onde Kate se encontrava.
Diane voltou-se e deparou com o dr. Silverstein, que questionou-a com uma expresso severa:
	Diga-me, aquele no  o sr. Richard MacNeal?
	Isso mesmo, doutor.
	Ele est indo visitar a sra. Kate Burnett?
	Sim  Diane confirmou.  Quem mais poderia ser?
	E a senhorita no o avisou de que  proibido entrar com flores na unidade de terapia intensiva?
	Eu bem que deveria, no ?  Diane sorriu.  S que no tive coragem. Alm do mais, a sra. Kate Burnett est numa sala isolada e...
	Isso no importa  o dr. Silverstein a interrompeu.  As regras desse hospital so muito claras.
	Conheo-as de cor e salteado, doutor. Mas achei o gesto do sr. MacNeal to bonito... Imagine s, trazer flores para a namorada, nessas circunstncias! S mesmo um homem muito apaixonado seria capaz disso.
O mdico meneou a cabea.
Eu desisto. Parece que todas vocs resolveram e1eg-lo o Romeu do novo milnio...
Kate Burnett  uma mulher de sorte, doutor.
Ela ter sorte se sobreviver ao choque, senhorita.
E agora vou lhe pedir um favor: quando o sr. MacNeal for embora, trate de dar um fim quele ramalhete de flores, est bem?
 No se trata exatamente de um ramalhete, mas de um vaso de gernios  Diane esclareceu, com uma expresso sonhadora.
	Seja l o que for, acho que a senhorita me entendeu.
	Certo, doutor  ela assentiu, num tom mais srio.  Cumprirei sua ordem. Retirarei o vaso de l, sim. Mas acho que vou lev-lo para a sala das enfermeiras.
	Coloque-o aonde quiser mas, pelo amor de Deus, no o deixe perto da paciente. Ela pode se contaminar, sabia? Ou ser que a senhorita j se esqueceu dos ensinamentos bsicos do curso de enfermagem?
	Oh no, dr. Silverstein  Diane assegurou, com um sorriso.  Fique tranquilo.
O mdico assentiu e afastou-se pelo corredor, resmungando:
	Mulheres... Sempre colocando o romantismo acima da razo.
	O romantismo no  um privilgio feminino, doutor  Diane retrucou.
O mdico voltou-se e ela concluiu:
 A maior prova disso  o sr. MacNeal.
O dr. Silverstein sorriu e continuou seu caminho.
To logo entrou na sala onde Kate se encontrava, Richard obrigou-se a esquecer do prprio sofrimento. Forjando um tom alegre, saudou-a como se ela pudesse ouvi-lo.
 Ol, Kate... Como passou o dia? Voc parece muito mais disposta do que pela manh... Ou ser impresso?  Aproximando-se do leito, acrescentou:  Sabe de uma coisa? Est uma noite linda, l fora, com uma lua nova que mais parece um anel dourado contra o firmamento cheio de estrelas.  Richard ergueu o vaso de gernios.  Veja s o que eu lhe trouxe... Gostou? Achei que seria mais apropriado, do que um simples ramalhete de flores que, afinal, tm uma vida to breve. No sei se voc gosta de plantas. Parece-me que sim, j que Jonathan  louco por elas. Sabe que outro dia estvamos no jardim do condomnio do prdio onde moro e um garotinho quebrou a haste de uma folhagem... Minha nossa, voc precisava ver a reao de Jonathan! Fez um verdadeiro discurso para o menino, que alis era maior que ele, sobre a importncia das plantas. E repetia, a todo momento: "Elas tm vida, como ns. E devem ser bem tratadas. Voc no gostaria que eu puxasse seu cabelo, no  mesmo? Pois as plantas tambm no gostam que a gente arranque suas folhas..."
Richard interrompeu-se, enquanto colocava o vaso de gernios na mesinha ao lado do leito.
 Mas por que estou lhe contando esse fato? Claro que vcc sabe que Jonathan  capaz disso e de muito mais. Alis, deve ter sido voc quem o ensinou a respeitar as plantas. Ah, aquele garotinho  realmente incrvel.
Richard continuou falando de suas impresses sobre Jonathan, por um bom tempo. Contou, tambm, que Alice o tinha levado ao shopping, onde lhe comprara roupas, calados e brinquedos. Demorou, particularmente, falando sobre o almoo no Restaurante Yokota, naquele dia memorvel. Depois comentou sobre sua passagem pela floricultura.
 Sabe o que a vendedora pensou?  disse, no final.  Que eu era seu namorado, imagine s! A propsito, parece que  isso que todo mundo pensa, por aqui. Vejo os olhares das enfermeiras, os sorrisos... Por que ser que todos acham que a nica relao possvel entre uma bela mulher e um homem  o romance?  Richard fez uma pausa.  Pois voc  uma mulher muito bonita, Kate Burnett. Acho que sabe disso, no? Mesmo assim, to frgil, voc continua sendo muito bela. Imagino como ser, quando se recuperar totalmente...
Agora a voz de Richard impregnava-se de ansiedade:
 Por falar nisso, voc bem que poderia sair dessa inrcia, no? Parece que faz um sculo que voc est aqui, imvel, plida...
Richard voltou-lhe as costas.
 Oh, desculpe, eu no deveria falar assim. No tenho direito de reclamar, no tenho direito a nada.  lgico que, se voc pudesse, sairia desse estado de letargia agora mesmo. Afinal, voc tem Jonathan, tem um sentido para viver. Se dependesse de sua vontade, aposto que voc estaria em p, pronta para enfrentar os desafios da vida e continuar criando seu filho, com toda a dignidade. Ah, como voc deve se sentir orgulhosa por...
Richard no completou a frase. Tinha acabado de voltar-se para Kate e estava perplexo. Pois ela havia aberto os olhos.
 Santo Deus!  exclamou, num tom abafado.  Voc... voc... voltou! Enfim o milagre que eu tanto esperava aconteceu!
Tudo parecia muito novo, para Kate. A nica certeza que ela possua era de que estava diante da Voz... A mesma voz que parecia acarici-la, enquanto falava. A mesma Voz que a havia ajudado a evitar o poo sem fundo, de onde era impossvel retornar.
Kate sentiu vontade de agradecer  Voz, por t-la trazido de volta  vida. No sabia exatamente como A Voz a ajudara. Mas estava certa de que, sem ela, talvez no conseguisse vencer a tentao de deixar-se ir... para sempre.
Kate quis sorrir e dizer uma nica palavra: Obrigada.
Entretanto, nem conseguia entreabrir os lbios. Quanto mais emitir algum som!
 Voc voltou...  A Voz repetia, sem cessar.
E Kate compreendeu que A Voz possua um dono. Que pertencia a um homem alto, que a fitava com intensidade e doura.
Um dos primeiros pensamentos que ocorreu a Kate foi que j tinha visto aquele homem antes, embora no o conhecesse.
Mas isso no fazia sentido. Alis, quase nada fazia sentido, naquele retorno.
Era preciso organizar a mente, as sensaes, os sentimentos, Kate decidiu, respirando fundo e compassadamente.
 Voc est bem?  o dono da Voz perguntou, sobressaltado.
Kate quis responder, mas sua voz parecia adormecida, no fundo da garganta.
 Vamos usar aquele velho recurso  o homem props.  Se estiver bem, pisque uma vez. Se no, pisque duas.
Kate piscou uma vez e ele sorriu, aliviado. Era belo, aquele homem, Kate pensou. O que estaria fazendo ali?
 Voc no imagina minha felicidade, Kate Burnett. No imagina mesmo...
Ento aquele homem se sentia feliz? Talvez por isso fosse to bonito, Kate pensou. Uma pessoa de bem com a vida sempre irradiava uma aura de rara beleza.
Kate continuava a observar aquele homem. Era curioso, mas tinha a ntida impresso de conhec-lo muito bem...
Lembrava-se com tanta clareza de sua voz, soando incessantemente, transmitindo coisas to boas.
Na verdade, no era bem uma lembrana, mas uma certeza. Kate sabia que devia parte de sua vida quela voz, que a havia acalentado e encorajado quando tudo parecia escuro, frio, sem volta. Mas como explicar isso? De onde viria tal certeza?
O esforo mental comeava a provocar-lhe cansao e uma quase irresistvel vontade de dormir.
Mas Kate no queria abandonar A Voz, ou melhor, o homem a quem ela pertencia. Desejava ardentemente continuar ali, contemplando aqueles olhos bondosos, azuis como um cu de primavera.
 Ah, Kate, voc pode imaginar a felicidade de Jonathan, quando eu lhe contar que voc enfim acordou?
"Jonathan!" Kate repetiu mentalmente o nome do filho, o ser a quem mais amava no mundo.
A Voz tinha uma forte ligao com Jonathan. Kate sabia disso, tambm. Era A Voz quem lhe dava notcias do filho, quando ela ainda estava na escurido.
Novamente a confuso ameaava apossar-se de Kate. Quem seria aquele homem, afinal? E por que estivera a seu lado o tempo todo? E como podia ter notcias de Jonathan?
"Meu filho!", Kate clamou, em pensamento, fixando os olhos verdes nos do desconhecido. "O que voc pode me dizer a respeito dele?"
Como se compreendesse sua aflio, o homem anunciou:
 Jonathan est muito bem. Levei-o para meu apartamento. Eu e minha me nos revezamos para cuidar dele, sabe? Mas s vezes tenho a ntida impresso de que  ele quem cuida de ns...
Mais uma vez, Kate quis sorrir. Porm, tudo o que conseguiu foi um leve repuxar de lbios.
 Devo ter enlouquecido...  disse o homem, subitamente.  Onde estou com a cabea, Santo Deus? Voc acabou de acordar e nem sequer avisei a enfermeira!
Kate quis recomendar que no se preocupasse, que estava tudo bem. Mas como, se no conseguia articular as palavras?
Alm do mais, o homem havia desaparecido de seu campo de viso.
Sozinha, ela experimentou olhar ao redor. No sabia onde estava. Havia uma porta, uma parede de vidro e uma mesinha ao lado, com um lindo vaso de flores.
Como era mesmo que se chamavam aquelas flores, que alis eram as suas preferidas?
Alis, tinha a ntida impresso de que A Voz mencionara qualquer coisa sobre aquelas flores.
A Voz...
No podia continuar chamando assim aquele homem. Tinha de descobrir seu nome.
Ah, tinha de fazer tantas coisas! Recuperar os movimentos dos lbios, por exemplo. S para comear, precisava voltar a sorrir e a articular palavras. Precisava, tambm, tomar conscincia de seu corpo.
E foi o que Kate fez. Fechando os olhos, procurou se ver como era, antes de...
Antes do qu?, ela se perguntou.
O que havia acontecido? Como fora parar ali? Como conhecera A Voz e seu dono?
"No posso continuar assim, to confusa", Kate decidiu, com a intensidade ditada pelo desejo de clarear a mente.
Por mera intuio, ela sabia que no devia se fazer muitas perguntas ao mesmo tempo, para no se cansar. Precisava se poupar ao mximo, juntar as frgeis energias de que dispunha, para ganhar um pouco de fora.
Fechando os olhos, tentou sentir o prprio corpo. Seus ps estavam pesados, assim como suas pernas. De sbito, Kate sentiu uma fisgada num brao, seguida por uma dor lancinante. Tentou mover o outro brao, mas no conseguiu. Ele parecia preso ao longo do corpo.
Kate olhou para baixo. Estava, coberta at a altura dos seios com um lenol imaculadamente branco. Gostaria tanto de se ver... Isso a ajudaria a tomar conscincia de seu corpo mais rapidamente.
Mas no podia ter pressa. Precisava agir com calma, muita calma, para entender com clareza o que se passava ao redor.
Um movimento junto  porta chamou-lhe a ateno. No momento seguinte, Kate viu-se cercada pelo dono da Voz e por uma mulher de rosto sardento e jovial.
A mulher olhou-a com ateno e sorriu:
 Ora, vejam, nossa Bela Adormecida acaba de acordar!  Voltando-se para o homem, comentou:  E, pelo que vejo, o senhor foi responsvel por isso. O que fez com ela? Beijou-a para despert-la do encantamento, como o Prncipe Encantado?
O homem sorriu de volta, parecendo um tanto embaraado:
 Ora, senhorita, que idia!
Mas a enfermeira j se ocupava de Kate.
	Querida, como est se sentindo? Ser que pode falar?
	Ainda no  o homem respondeu por ela.  Mas pedi-lhe que usasse o velho recurso: piscar uma vez para dizer sim e duas para dizer no.
	tima idia, sr. MacNeal.  Delicadamente, ela pediu a Kate:  Queira piscar uma vez, se estiver se sentindo bem. E duas, em caso contrrio.
Kate piscou uma vez.
 timo.
A mulher parecia muito feliz em v-la, Kate constatou. Quem seria ela?
A propsito, como era mesmo que havia chamado o homem? MacDeal? Mac... Neal? Algo assim.
E Kate decidiu ficar atenta, para aprender o nome da Voz, ou melhor: de seu dono.
 Bem, sr. MacNeal,  melhor sair, agora  disse a mulher.
"MacNeal", Kate tentou memorizar. "MacNeal..."
	O qu?  O homem parecia, de sbito, ofendido.
	O senhor ter de me dar licena, para que eu possa cuidar da sra. Kate Burnett.
	Escute aqui, enfermeira Diane...  O homem reagiu.  A senhorita por acaso tem idia do quanto esperei por este momento? E agora, que ele chegou, no posso simplesmente ir embora. Quero ficar ao lado de Kate.
	Oh, imagino que sim, sr. MacNeal. Mas acontece que j avisei o dr. Silverstein que a paciente acordou. Ele est vindo para c. E acho que no gostaria de v-lo.
	Por que no? Tenho todo o direito de permanecer aqui e  o que farei.
	Sr. MacNeal, seja razovel... O dr. Silverstein ter de examinar a sra. Kate Burnett. A propsito...
A mulher no concluiu a frase, Kate observou. Mas viu-a pegar o vaso de gernios e dirigir-se  porta.
	Um momento, enfermeira Diane  o homem ordenou.  Aonde pensa que vai, com essas flores?
	Preciso lev-las para a sala das enfermeiras, antes que o dr. Silverstein chegue.
	Mas eu as trouxe para Kate Burnett.
"Isso mesmo", Kate gostaria de dizer. Pois agora se lembrava, embora no soubesse como, de que aquelas flores lhe pertenciam.
	 proibido trazer flores para c, sr. MacNeal. H o risco de contaminao, sabe? A sra. Kate Burnett ainda est muito frgil e...
	Por que a senhorita no me falou sobre isso agora h pouco, quando cheguei?
	Porque no tive coragem. O senhor parecia feliz como um adolescente ao presentear a primeira namorada... Fiquei to comovida, que no o alertei sobre a proibio. Mas levei uma bronca do dr. Silverstein, por isso. E prometi a ele que tiraria as flores daqui.
Kate voltou a ateno para o homem, que de repente parecia embaraado. Seus olhos encontraram os dele. E ento Kate sentiu que sua mente se clareava.
Aquele homem tinha estado a seu lado, encorajando-a a lutar para viver, fazendo-a recordar-se do filho e do quanto ele necessitava de seu apoio.
Kate no tinha a menor idia de como isso acontecera. Mas tampouco duvidava da veracidade daquela sensao: devia muito quele homem. Alis, estava ligada a ele de maneira definitiva... Por um lao que talvez nenhuma razo pudesse explicar.
 Desculpe, senhorita...
A voz do homem voltava a soar, Kate constatou. Mas no se dirigia a ela e sim  mulher:
	Estou agindo de maneira totalmente infantil, no  mesmo?
	Isso  muito compreensvel, sr. MacNeal. Afinal, sua namorada acaba de voltar  conscincia.
"Namorada?", Kate perguntou-se. Era isso que a mulher tinha dito?
 Com licena.  Uma voz masculina soou, prxima  porta.
Kate olhou naquela direo, a tempo de ver um homem de branco entrando.
	Enfermeira Diane, ser que j no lhe pedi para levar essas flores embora?  disse o homem.
	Sim, dr. Silverstein, mas acontece que o horrio de visitas ainda no terminou e...
	Cuide disso agora mesmo, sim?  o homem ordenou, interrompendo-a.
	Certo.
Kate gostaria de impedir, mas no pde. A mulher pegou o vaso de flores e retirou-se de seu campo de viso, depois de brind-la com um sorriso.
 Dr. Silverstein, ser que podemos conversar, de pois que o senhor examinar Kate?  o dono da Voz perguntou.
J no parecia embaraado como antes, Kate concluiu.
 Sim, sr. MacNeal  o homem de branco respondeu.  Mas queira me aguardar na sala de espera, est bem?
 Certo.
Emocionada, Kate viu o dono da Voz, alis o sr. MacNeal, inclinar-se em sua direo.
 Eu voltarei depois  ele avisou-a, num tom suave, que mais parecia uma carcia. Tocando-lhe o rosto de licadamente, acrescentou enquanto sorria:  Seja bem-vinda ao lado claro da vida.
Dessa vez, Kate conseguiu que seus lbios a obedecessem, para transmitir a emoo que a dominava. O rosto do homem se iluminou:
 O senhor viu, dr. Silverstein? Ela sorriu para mim! No foi uma miragem! Ela realmente sorriu!
	Acredito nisso, sr. MacNeal. Mas agora, por favor, queira deixar-me a ss com a paciente.
	No foi miragem  ele repetiu, enquanto a beijava docemente, na testa.
Kate experimentou uma sensao de alegria. O contato dos lbios clidos daquele homem contra a pele causava-lhe um indescritvel bem-estar. E o mais curioso era que ela tinha certeza de que isso j acontecera, antes.
O dono da Voz saiu. E Kate sentiu-se de sbito muito frgil.
Consolou-se com a idia de que ele voltaria. Disso, no restava dvidas. Afinal, ele sempre voltava.
Apenas, Kate no podia explicar o porqu dessa certeza. Simplesmente sabia.
E isso era suficiente para dar-lhe coragem de continuar lutando para viver.

CAPTULO VII

Kate abriu os olhos e custou a entender onde se encontrava. A sala j no era a mesma na qual havia despertado. Entretanto, parecia mais agradvel.
A primeira coisa que ela notou foi o vaso de gernios, na mesinha ao lado da cama. J o tinha visto antes, com toda a certeza.
Aos poucos, lembrou-se de que fora um presente da Voz, ou melhor, daquele homem bonito e gentil, uma espcie de anjo da guarda que surgira em seu caminho, num momento to terrvel.
Se pudesse conversar com ele, acabaria esclarecendo muitas coisas.
Kate sorriu. Estava certa de que o homem voltaria, para v-la.
No tinha como explicar essa certeza. Mas sabia que o sr. MacNeal entraria naquele quarto, a qualquer momento.
Alis, o quarto tinha um banheiro contguo, ela notou, voltando-se na direo de uma porta entreaberta, por onde podia ver um lavabo.
Quando a teriam levado para ali?, Kate se perguntou.
O quarto era muito bem equipado, ela concluiu, aps alguns instantes de acurada observao. Havia um sof, um armrio embutido e at um aparelho de tev. E tambm um telefone, ao lado do vaso de gernios, sobre a mesinha.
	Bom dia, sra. Kate Burnett.  A enfermeira Dia-ne saudou-a, ao entrar.  Caso no se lembre, sou a enfermeira Diane. Ns nos vimos ontem, logo que a senhora acordou. Como est se sentindo?
	Bem, obrigada  Kate respondeu.
	Vou medir sua presso, agora. Depois o dr. Silverstein vir v-la.  Enquanto colocava o aparelho de medir presso no brao de Kate, ela perguntou:  E ento? O que est achando de seu novo aposento?
Kate sorriu.
	Estou num quarto muito bom, no  mesmo?
	No melhor e mais bem equipado que temos. Ontem  noite, quando o dr. Silverstein disse a seu namorado que a senhora j podia sair da unidade de terapia intensiva, ele nos pediu que lhe dssemos o melhor apartamento do hospital.
	Namorado?  Kate repetiu, confusa.  Est falando da Voz?
	Como assim?  a enfermeira indagou, sem entender.
	Refiro-me a...
Como era mesmo o nome do dono da Voz? Kate se perguntou. E conseguiu lembrar-se a tempo de concluir a frase:
 MacNeal.
Diane sorriu:
 Ento  assim que a senhora o chama? Pelo sobrenome?  Num tom confidencial, acrescentou:  Bem, vou lhe contar um segredo: a princpio, ns pensamos que ele fosse seu marido. Mas da uma colega viu que vocs tm sobrenomes diferentes. Isso tirou as dvidas.  Diane interrompeu-se para ler a presso de Kate no aparelho.  Doze por oito... No poderia ser melhor.  Enquanto retirava o aparelho, comentou:  A senhora tem sorte de poder contar com um homem to dedicado e amoroso. O dr. Silverstein disse que ns o elegemos o Romeu do novo milnio. E, c entre ns, acho que o ttulo vem a calhar.
Kate fitava-a com perplexidade. A convico com que a enfermeira comentava sobre seu suposto relacionamento com MacNeal era impressionante.
"Acho que acordei no mundo errado", ela pensou, de sbito. "Pois as coisas no esto fazendo sentido. De onde essa moa tirou a idia de que eu e MacNeal somos... namorados?"
A enfermeira Diane continuava a tagarelar alegremente, sobre assuntos do corao. E a certa altura afirmou:
 Quanto a mim, no fao questo de casamento oficial. O que desejo, realmente,  encontrar um homem que me ame e respeite... Quero ser feliz, como a senhora e o sr. MacNeal.
Diane fez uma pausa, antes de acrescentar:
 Sabe que, no comeo, todas ns pensamos que o menino fosse filho dele? E incrvel como se parecem!
Kate ficou pensativa por alguns instantes. De fato, seu filho tinha olhos azuis, como MacNeal. Mas os cabelos eram ligeiramente mais claros...
"Que grande confuso", ela concluiu, voltando a concentrar-se nas palavras da enfermeira.
 Ele veio visit-la, religiosamente, todas as manhs e todas as noites. E era comovente a maneira como falava com a senhora, o tempo todo, mesmo sabendo que no poderia ser ouvido...
Kate sentiu-se invadida por uma forte emoo. De algum modo sabia que isso era verdade. No havia como explicar, mas sentia-se muito prxima daquele homem!
O dr. Silverstein entrou no apartamento, para examin-la. E Kate aproveitou para fazer-lhe algumas perguntas sobre seu estado.
O mdico tratou-a com polidez e delicadeza. Mas no esclareceu muitas coisas. Apenas repetia:
 A senhora ficou em estado de choque por mais de uma semana. Felizmente j est fora de perigo, para alvio e alegria de todos ns.
Depois da consulta, o dr. Silverstein deu instrues  enfermeira Diane, despediu-se e saiu.
A ss com ela, Kate crivou-a de perguntas. Precisava localizar-se, entender o que havia acontecido durante o tempo em que estivera inconsciente.
Mais de uma semana, o mdico havia dito. Por mais de sete dias, ela ficara alheia ao mundo. Por qu? E como viera parar ali? De onde surgira MacNeal e sua infinita bondade? E por que ele resolvera ficar a seu lado, cuidar de seu filho? Que motivos teria para tanto?
Kate queria perguntar tudo isso, e muito mais,  enfermeira, que preparava uma injeo.
Mas depois do medicamento sentiu-se to sonolenta, que acabou desistindo. Aos poucos, conseguiria esclarecer toda aquela situao. Mas, no momento, as plpebras pesavam-lhe por demais e era impossvel resistir ao sono.
Kate estava saindo da biblioteca onde trabalhava, na cidade de Jackson.
A tarde caa, num espetculo de cores e luzes de indescritvel beleza.
A escolinha que Jonathan frequentava ficava a poucos quarteires dali. No caminho, havia uma sorveteria.
O Escort estava estacionado em frente  biblioteca, mas Kate preferia buscar Jonathan a p. Assim, poderia desfrutar melhor daquele belo entardecer.
Jonathan bem que gostaria de caminhar um pouco tambm... Sobretudo se ela o convidasse para tomar um sorvete.
Ao aproximar-se da escolinha, Kate viu vrios homens parados junto ao porto. Eram os pais das crianas que ali estudavam.
Curioso era que no havia nenhuma me, Kate notou.
Ao chegar ao porto, ela avistou o filho, junto com outras crianas.
 Jonathan!  chamou-o, enquanto acenava.  Mame chegou!
O menino correu para encontr-la. Uma professora abriu o porto, dando-lhe passagem.
Kate o abraou calorosamente, enquanto ouvia uma garotinha perguntar:
	Jonathan, por que seu pai nunca vem buscar voc?
	Porque no tenho pai.
	Mas todo mundo tem, Jonathan.
	Eu s tenho minha me. E ela cuida muito bem de mim.
Kate abriu os olhos. Estivera sonhando com um fato ocorrido alguns meses atrs.
A cena fora realmente assim, com uma diferena: no sonho, Jonathan respondia ao argumento da garotinha. Na realidade, porm, ele nada dissera. Ficara calado, pensativo. E quando ela o convidara para tomar sorvete, Jonathan parecera no ouvir.
Kate insistira e ele acabara concordando. Enquanto saboreava uma taa de sorvete de flocos, seu sabor preferido, o garotinho perguntara:
__ Mame, por que ser que o papai foi embora?
__ Quem pode saber, querido?  Kate respondera, comovida e penalizada.  Talvez ele achasse ue no poderia cuidar bem de ns...
Mas ele no precisava tomar conta da gente. Era s ficar bem pertinho... Morar na mesma casa, me buscar na escola...
Fazendo um intenso esforo para no chorar, Kate dissera:
	Bem, se ele houvesse visto voc, aposto que no teria coragem de partir. Mas nem chegou a conhec-lo, Jonathan.
	E voc ficou brava com ele?
	Por algum tempo, sim  Kate respondeu, com toda a sinceridade.  Mas hoje penso de um modo diferente: como poderia ter raiva de seu pai, se ele me deu voc?
Jonathan sorrira, largamente. E depois de algumas colheradas de sorvete, afirmara:
 Sabe de uma coisa? Eu at sinto falta do papai. Mas estou feliz com minha mezinha...
Comovida, Kate desatara a chorar.
	Voc ficou triste com o que eu disse, mame?  ele indagara, aflito.
	No, querido. Fiquei feliz. Imensamente feliz, alis.  E tomando-lhe a mozinha, por sobre a mesa, sentenciara:  Voc  a pessoa a quem mais amo, neste mundo. E meu motivo para viver, querido.
	Tambm amo voc, mame.
	Muito?
	Muito.
Com um profundo suspiro, Kate voltou ao momento presente.
Um corte brusco havia ocorrido em sua vida, ela pensou.
Quando poderia retomar a rotina normal, com Jonathan? Quando poderia voltar ao mundo seguro que construra para si e para o filho?
Estivera inconsciente, por um motivo do qual ainda no conseguia se lembrar. E agora estava difcil entender uma srie de coisas.
Bem, isso devia ser normal. Aos poucos ela iria clareando as idias.
De sbito, Kate percebeu uma presena a seu lado. Uma presena clida, amiga, preciosa...
	Ol.  Abrindo os olhos, ela sorriu para o homem a quem bem poderia chamar de seu benfeitor.
	Ol, Kate.  Ele sorriu de volta.  Desculpe-me por t-la acordado.
	Eu no estava dormindo... Apenas pensando. Tanto, que nem ouvi voc chegar.
	Entrei o mais silenciosamente que pude, para no fazer barulho.
	Pois conseguiu.
Os olhos de ambos se encontraram, por um longo momento.
 Voc est melhor?  ele indagou.  Nem  preciso responder. Pela sua aparncia, d para perceber que j se recuperou bastante.
Kate ento se deu conta de que havia muito tempo que no pensava em sua aparncia.
Levantando as mos  altura dos olhos, observou-as com ar crtico. Estavam ressecadas e ainda traziam as marcas do soro, que a enfermeira Diane retirara na noite anterior. Tocou o rosto e chegou  concluso de que tambm estava ressecado. E no era para menos. Afinal, sua pele era muito e sensvel. E fazia tanto tempo que no recebia cuidados.
	Devo estar horrvel  Kate pensou, em voz alta.
	No fale assim  ele a advertiu, num tom suave.
 Voc est linda.
 No sabia que voc, alm de tudo, era mentiroso.
 Kate tentava gracejar.
	Est linda, sim  ele replicou.  A vida voltou a pulsar em seu corpo e esprito. Seus olhos me dizem isso.
	Obrigada  ela murmurou, comovida.  Voc  a bondade em pessoa.
	No exagere  ele retrucou, modestamente.
	A propsito, como se chama?
Ele sorriu, exibindo dentes brancos e perfeitos.
	S agora me lembrei de que voc no sabe meu nome.
	A enfermeira Diane o chama de sr. MacNeal.
	Este  meu sobrenome. O primeiro nome  Richard.
	Richard  Kate repetiu, devagar.  Muito prazer em conhec-lo... E isso que devemos dizer, quando uma pessoa se apresenta. Entretanto, tenho a ntida impresso de conhec-lo h muito tempo.
	Isso  porque falei muito com voc, nos ltimos dias.
	Eu sei.  Kate sorriu, emocionada.  Voc  A Voz.
	Como?  ele indagou, sem entender.
	Vou tentar explicar.  Ela ficou em silncio por alguns instantes, como se escolhesse bem as palavras para traduzir algo impalpvel, mgico, absoluto.  No me pergunte por qu, mas, quando eu estava numa espcie de limbo, sem conscincia de meu prprio corpo, sem qualquer elo com o mundo material, eu percebia uma voz. E essa voz era sua.
Nos olhos azuis de Richard estampou-se uma forte emoo.
	Ento voc me escutava?
	No sei se escutar  o termo correto para definir o que estava me acontecendo. Em certos momentos, eu conseguia distinguir bem as palavras. Em outros, apenas percebia sons ritmados, uma espcie de acalanto que me tranquilizava, me fazia desejar a vida e no o nada.
Richard tomou-lhe a mo. E Kate comentou:
 Tambm isso eu percebia, vezes. Um calor, uma presena clida que me ajudava a escapar do poo sem fundo.
Ante a expresso curiosa e emocionada do homem a seu lado, Kate explicou:
	O poo sem fundo , talvez, o portal para a morte. Havia momentos em que eu tinha vontade de ceder, de entregar os pontos, de me deixar arrastar para a escurido. Mas ento A Voz chegava e encorajava-me a viver... Sobretudo quando me falava de Jonathan.
	Oh, Kate Burnett...  Richard murmurou, tocando-lhe o rosto delicadamente.  Eu no tinha certeza de que voc me ouviria. Mesmo assim, continuava falando. Achava que, ainda que voc no entendesse bem as palavras, perceberia o carinho, o calor humano que eu tentava lhe transmitir.
	Por qu?  Kate perguntou.
	Como?
	Por que voc fez isso? Por que ficou a meu lado nesses dias todos, me trouxe flores, cuidou de meu filho e...
	Ento voc ainda no se deu conta de quem sou?  Richard a interrompeu.
Kate franziu a testa.
	Tudo  muito confuso. Eu no sabia seu nome e, no entanto, tinha a ntida sensao de conhec-lo. Tambm sua fisionomia no me  estranha, embora eu esteja certa de jamais t-lo visto antes.
	Jamais?  Richard repetiu, com o semblante subitamente triste.  No, Kate Burnett... Voc me viu, sim... No acidente.
Kate fechou os olhos com fora, tentando concatenar as idias. Mas era to difcil.
	Oh, Deus, espero no ter dito nada de errado  Richard sobressaltou-se.  Talvez eu no devesse tocar nesse assunto.
	Est tudo bem  Kate tentou tranquiliz-lo.  Preciso mesmo saber como vim parar aqui. Quer dizer ento que sofri um acidente?
	Voc no se lembra?
	Agora que voc mencionou essa palavra, sei que algo aconteceu... Mas tudo o que consigo descobrir, a respeito, so vagas sensaes.  De sbito, Kate empalideceu.  E meu filho? Ele devia estar comigo, na hora do acidente.
	Jonathan vai muito bem. Ele no sofreu nenhum ferimento.
	Ento estvamos, realmente, juntos  Kate concluiu, num fio de voz.
	Calma, por favor  Richard recomendou, visivelmente aflito.  Voc no pode se exaltar desse jeito. Isso prejudicar sua recuperao.
	Mais prejudicada ficarei, se no conseguir pr a mente em ordem.  Num tom de splica, Kate pediu:  Ajude-me, por favor. Conte-me tudo o que sabe, sobre o motivo pelo qual estou aqui. De que modo meu filho foi parar em suas mos? Quando esse acidente aconteceu? Como  possvel que eu tenha sado ferida e, Jonathan, no? A menos que voc esteja me ocultando a verdade...
	Calma  Richard tornou a recomendar, pressionando-lhe levemente a mo, num gesto de carinho e solidariedade. Num tom suave, acrescentou.  Eu lhe contarei tudo o que quer saber, desde que me prometa uma coisa.
	Qualquer coisa  ela concordou, ansiosa.
	O que devo fazer?
	Procure no se exaltar. Oua-me com toda a calma do mundo e guarde as perguntas para o final da narrativa, certo?
Kate aquiesceu com um gesto de cabea.
	Antes de mais nada, quero que se tranquilize com relao a Jonathan. Eu e minha me estamos cuidando dele.
	Dessa parte, eu me lembro. Voc me disse isso, quando acordei.
	Ento, no pense que a estamos enganando, a respeito dele. Alis, devo traz-lo logo, para uma visita, assim que o dr. Silverstein permitir.
Kate sorriu, enquanto seus olhos inundavam-se de lgrimas.
	A perspectiva de rever meu filho j deixa tudo mais claro e tranquilo  ela afirmou, com um profundo suspiro.
	timo.  Richard sorriu, aliviado.  Assim est melhor.  E comeou a narrar tudo o que acontecera, desde o momento do acidente.
Que A Voz era grave e pausada, Kate podia se lembrar. Que s vezes soava como uma doce carcia, tambm.
Mas era reconfortante saber que A Voz tinha um nome, ou melhor: um dono.
Mesmo falando de um assunto terrvel, como o acidente que a deixara em estado de choque, Richard MacNeal continuava sendo belo, encantador e gentil.
H quanto tempo ningum a tratava assim, Kate pensou. H quanto tempo nenhum homem lhe falava daquela maneira...
	Pouco antes da ambulncia chegar, voc me pediu que cuidasse de seu filho  disse Richard, a certa altura.  Lembra-se?
	No.  Uma lgrima furtiva escorreu do olho de Kate.  Mas acho que fiz muito bem em pedir-lhe isso. Pois no conheo ningum, neste mundo, que possa me despertar mais confiana do que voc.
	Obrigado  Richard enxugou-lhe delicadamente a lgrima.  Voc no imagina o quanto me faz bem ouvir isso.
	E voc, Richard MacNeal?  Kate segurou-lhe a mo.  Por acaso tem idia do imenso bem que est me causando? Voc me salvou da morte, me ajudou a sair do limbo e, agora, est clareando minha mente. Isso, sem contar que tem cuidado de meu filho. Ser que algum dia poderei agradec-lo?  Sem esperar pela resposta, continuou:  Acho que no. Ainda que eu passasse o resto de minha vida dizendo obrigada, no seria suficiente.
Richard engoliu em seco:
	Isso era o mnimo que eu podia fazer, para reparar o mal que lhe causei.
	Mal?  Kate repetiu, franzindo o cenho.  Do que est falando, Richard?
	Do acidente  ele respondeu, com uma expresso de angstia.  Do que mais poderia ser?
	No estou entendendo  Kate afirmou, confusa.
 Fui o culpado pelo acidente. Ser que voc ainda no percebeu isso?
Kate fitou-o com perplexidade:
	De onde voc tirou essa idia absurda?
	Ora, eu estava parado no meio da rua e voc no teve como desviar. Depois veio a caminhonete de que j lhe falei e...
	Mas voc mesmo no acabou de dizer que foi obrigado a parar, para no atropelar o menino que estava andando de bicicleta?
	Sim. Mas se eu no estivesse to cansado, devido s muitas horas de trabalho na empresa, meus reflexos seriam mais rpidos. Teria me refeito mais rpido do susto e seguido meu caminho, deixando a rua desimpedida.
	Voc est se torturando  toa  Kate sentenciou.
 At mesmo eu, nesse estado to frgil, posso perceber isso com clareza.
 Voc no entende...  Richard replicou, irredutvel.  Fui realmente o culpado.
Kate o fitou com um misto de pena e ternura.
	No entendo como voc pode se sentir assim. De qualquer modo, vou continuar pensando que foi a bondade, e no o remorso, que o levou a me ajudar.
	Fiz tudo de corao, acredite.
	No h como duvidar disso, Richard MacNeal  ela respondeu, sorrindo docemente.  Ningum conseguiria ser to bondoso, se realmente no tivesse um corao iluminado.  Aps uma pausa, acrescentou:
 Mas gostaria que voc se livrasse dessa culpa.
Ele sorriu, com amargura, ao confessar:
	Essa culpa me acompanha h um bom tempo, Kate Burnett. No foi voc quem a plantou dentro de mim.
	No?  ela reagiu, curiosa.
Richard meneou a cabea, antes de dizer:
 Voc apenas reacendeu uma ferida que trago aqui.  Ele tocou o peito.
Kate fechou os olhos por um instante. Uma sensao de tristeza a invadia.
 Oh, Deus, o que estou fazendo?  A voz de Richard traa uma forte angstia.  Em vez de ajud-la a se acalmar, acabei deixando-a ainda mais perturbada!
 No se recrimine, Richard MacNeal. Voc no pode ser perfeito o tempo todo.  Kate abriu os olhos.
 Voc  meu salvador. Entenda isso de uma vez por todas e pare de se torturar.  Fitando-o com intensidade, ela pediu:  Se algum dia me der a honra de sua confiana, eu bem que gostaria de saber que dor  essa que voc traz no peito.
Richard fitou-a longamente, mas nada respondeu.
	Voc no confia em mim, no  mesmo?  Kate concluiu.  Bem, s me resta respeitar seu silncio.
	No se trata de desconfiana  ele esclareceu.
 Apenas, no quero mais falar de coisas tristes... No enquanto voc estiver convalescendo. Mas algum dia lhe contarei.
	Ficarei esperando. E se eu puder ajudar...
	Voc j me ajudou muito, Kate.
	Como?
	Sobrevivendo.  Inclinando-se, Richard beijou-a na testa.
Kate fechou os olhos, para receber aquela doce carcia.
	Sabe de uma coisa?  disse, baixinho.
	Sim?  Richard sorriu, com o rosto bem prximo do seu.
	Eu nunca tinha visto um anjo, ao vivo. Mas depois que conheci voc...
	Ah, Kate Burnett, estou to longe de ser um anjo quanto a Terra est do Sol. Mas se voc quiser conhecer um, de verdade, fale com a sra. Andersen.
	Trata-se de uma das enfermeiras, no  mesmo?
	Sim  Richard confirmou.
	J a conheci. Ela  um anjo.
	Eu no disse?  Mais uma vez, Richard assumiu um tom confidencial, ao afirmar:  Mas  um anjo equivocado, sabe?
	Por qu?
	Ela acha que somos namorados.
	A enfermeira Diane tambm.
	E as duas no so as nicas a incorrer nesse mal-entendido.  Richard sorriu.  Por que ser que as pessoas pensam que a nica relao possvel entre um homem e uma mulher ...
	Com licena.  A enfermeira Diane entrou no quarto.  O horrio de visitas terminou, sr. MacNeal.
	J?  Richard e Kate protestaram, ao mesmo tempo.
	O tempo sempre voa, para os namorados  Diane sentenciou.
Kate e Richard entreolharam-se, tomados por uma profunda emoo.
Acariciando-lhe os cabelos, Richard inclinou-se e beijou-a novamente, dessa vez em ambas as faces. Em seguida despediu-se da enfermeira e perguntou:
	Posso falar com o dr. Silverstein?
	Sim.  Com um largo sorriso, Diane acrescentou:  Mas acho que j sei o que o senhor vai perguntar a ele... E sobre o garotinho, no?
	Isso mesmo. Quero saber quando poderei trazer Jonathan, para visitar Kate.
	Amanh  disse Diane.
 Est falando srio?  Richard indagou, agradavelmente surpreso.
Com a respirao suspensa, Kate esperou pela resposta.
	Adivinhei que o senhor perguntaria ao dr. Silverstein sobre isso e resolvi adiantar as coisas.
	Ento ele j autorizou a vinda de Jonathan?  Kate quis saber.
	Sim  Diane confirmou, olhando de um para o outro. Parecia to entusiasmada quanto ambos.  Assim, a famlia feliz estar reunida. Ser um momento inesquecvel.
	Obrigada, senhorita  Kate agradeceu.
	Obrigado  Richard fez o mesmo.
	Ora, vocs merecem toda a felicidade do mundo.
	Acho que ela  outro anjo da guarda, Kate  disse Richard, referindo-se  enfermeira, que parecia to alegre quanto comovida.
	Pelo visto, estamos cercados por eles  Kate comentou, invadida por uma onda de f e confiana... na vida... no futuro.
Agora, mais do que nunca, tinha certeza de que tudo ficaria bem. E a perspectiva de rever Jonathan aquecia-lhe o corao.

CAPTULO VIII

Richard! Que bom que voc chegou! Mas o que voc veio fazer em casa, a essa hora?
A euforia do pequeno Jonathan podia ser ouvida da cozinha, onde Alice se encontrava. A passos largos, ela dirigiu-se  sala e deparou com uma cena comovente: Richard havia erguido Jonathan nos braos e o mantinha aconchegado contra o peito, enquanto acariciava-lhe os cabelos.
	Posso saber o motivo dessa adorvel surpresa?  Alice indagou, sorrindo.
	Vamos dizer a ela?  Richard perguntou a Jonathan.
 Eu conto!  o garotinho decidiu.
Richard colocou-o no cho.
Com ar solene, Jonathan anunciou:
 Eu j posso visitar mame.
	Ah, que maravilha!  Alice reagiu, emocionada. Voltando-se para Richard comentou:  Pensei que ainda fosse demorar alguns dias, at que Jonathan pudesse v-la. Afinal, ela s acordou ontem.
	Sim, mame. Mas estive conversando com o dr. Silverstein, agora h pouco. Ele est impressionado com a recuperao de Kate.
	Graas a Deus!  Alice exclamou.
	Graas a Deus!  Jonathan repetiu.
Richard e Alice entreolharam-se, encantados. Decididamente, Jonathan sempre os emocionava, com sua inocncia.
	Na verdade...  Richard continuou  Kate no teve muitos traumas fsicos. Apenas escoriaes e luxaes. O que realmente preocupava o dr. Silverstein era o estado de choque em que ela se encontrava.
	Mas agora mame j sarou, no  mesmo, Richard?  Jonathan perguntou, com o rostinho iluminado por um sorriso.
	Ela ainda precisa de cuidados  Richard afirmou.
 Mas vai sarar, com toda a certeza.
 Ah, que notcia linda!  Alice estava radiante.
 Precisamos comemorar, filho. Que tal faltar  empresa, agora de manh, e ficar para almoar conosco? Estou preparando uma torta de palmito com legumes que, modstia  parte, ficar deliciosa.
	Convite aceito  Richard respondeu, decidido.
	Oba!  Jonathan gritou de alegria.
Richard pegou-o novamente no colo. Alice aproximou-se e Jonathan enlaou-a pelo pescoo. Richard, por sua vez, enlaou-a pela cintura. E os trs ficaram assim, abraados, comemorando aquele momento especial.
O telefone soou, mas nenhum deles se moveu.
O som insistente persistiu por alguns instantes, at que Alice decidiu:
 Vou atender esse chato. Que horas para telefonar!
Richard sorriu, enquanto colocava delicadamente o pequeno Jonathan no cho.
 Bem, mame, ningum poderia adivinhar o momento que estamos vivendo.
	 verdade.  E Alice atendeu a chamada:  Al? Pois no... Ah,  voc, Chester? Como vai? Ele est aqui, sim. Queira aguardar um minutinho, por favor.  Tapando o fone, anunciou:  Ele quer falar com voc, filho.
	Obrigado, mame.
	Jonathan, que tal me ajudar com a torta, l na cozinha?  Alice props.
 Vamos l!  o garotinho concordou, alegremente.
Sozinho, na sala, Richard atendeu Chester.
 Al? Voc teve sorte de me encontrar aqui. Porque no ligou para o celular? Como?  Richard tateou o bolso do palet, onde costumava carregar seu telefone celular.  Puxa,  mesmo! S agora estou vendo que me esqueci de peg-lo, hoje cedo. Mas diga-me, Chester, houve algum problema a na empresa? Como? Temos uma reunio marcada para agora, com os fornecedores? Mas no seria hoje  tarde? Ah, desculpe, acho que confundi os horrios. Escute, ser que voc poderia cuidar desse compromisso, para mim? Faa-me esse favor e eu lhe ficarei eternamente grato... Como? Sim, estou feliz e tenho motivos de sobra para tanto.  Com a voz carregada de entusiasmo, Richard anunciou:  Kate Burnett saiu do estado de choque e est se recuperando de forma impressionante. Ora, claro que eu ia lhe contar... Tencionava fazer isso hoje  tarde. Como? No, Chester, s chegarei a por volta de duas horas. Vou almoar com mame e Jonathan, para comemorar. Certo, at logo, ento. No se esquea de dar a boa notcia a Charlene. Um abrao.  Richard desligou e dirigiu-se a sua sute.
Tinha esquecido o telefone celular sobre o criado-mudo. Alis, nem sequer havia carregado sua bateria. Richard sorriu.
Aquela era a primeira vez, desde que comprara o aparelho, que o esquecia em casa.
 Justo eu, que sempre fui to responsvel  murmurou, divertido.
Tambm, tivera outras coisas para pensar, desde a noite anterior... O milagre que trouxera Kate de volta  vida, por exemplo. E sua incrvel recuperao.
Isso, sem contar o quanto a imagem de Kate havia lhe ocupado a mente, at alta madrugada. Richard passara horas recordando cada detalhe do momento em que Kate emergira das sombras.
Decididamente, aquela mulher era especial. Richard tinha certeza de que jamais a esqueceria.
De sbito, ele se lembrou de uma providncia importante, que precisava tomar: informar o motorista da caminhonete, Charles Albert Oak, de que Kate havia sado do estado de choque. E foi o que fez.
A primeira coisa que Kate notou, ao acordar, foi o vaso de gernios. No se lembrava de ter agradecido Richard, por aquele belo presente. Bem, poderia fazer isso mais tarde, quando ele chegasse.
Alis, Jonathan tambm viria, naquela noite. E Kate mal podia esperar para abra-lo.
Pegando o controle remoto que estava sobre a mesinha, ela ligou a televiso.
Desde aquela manh, depois que Richard se fora, ela havia tentado assistir  tev... sem muito sucesso.
Os programas de auditrio lhe pareciam muito barulhentos e agitados. E, na maioria dos filmes, a violncia era o ingrediente principal.
Assim, Kate havia desistido e desligado o aparelho.
Resolveu tentar novamente.
Sintonizou num canal que transmitia um festival de msica clssica e, fechando os olhos, deixou-se embalar pela msica.
Fazia tempo que no ouvia algo to belo...
Kate no tardou a identificar a obra que a orquestra executava: tratava-se de uma pea de Vivaldi, o grande compositor italiano.
Aquela msica era um blsamo para a alma, Kate pensava, deliciada.
Entregando-se  magia dos acordes perfeitos, ela relaxou como havia muito no conseguia.
O concerto chegou ao fim. Kate abriu os olhos. As cmeras focalizavam a plateia, que aplaudia com total entusiasmo. Sorrindo, Kate resolveu bater palmas, tambm. Era seu modo de agradecer o bem que a msica lhe fizera.
A transmisso chegou ao fim. E Kate desligou a tev.
Seu esprito estava em paz. E, a mente, muito clara.
Kate comeou a repensar sua vida.
Tinha sido uma criana solitria e triste, filha de pais problemticos, que nunca chegaram a compreend-la.
Perdera-os num acidente de avio, quando era ainda adolescente.
Uma tia, Annabelle Burnett, a acolhera e criara com excessiva severidade.
A velha senhora, irm do pai de Kate, jamais se casara. Era uma mulher taciturna, fechada, que parecia ignorar o mundo exterior.
Ao receber Kate em sua casa, no tinha a menor idia do que sentia ou pensava uma adolescente de quinze anos. Mas estava decidida a am-la...  sua maneira.
Se at ento Kate sofrera por ter pais displicentes, que jamais lhe perguntavam aonde ia e a que horas estaria de volta, ou sobre o que pensava e sentia... pepois passara a sofrer justamente pelo oposto: tia Annabelle a proibia de ir a qualquer lugar, at mesmo na sorveteria da esquina, ou ao cinema do bairro. No a deixava estudar em casa de amigas, nem participar das atividades de lazer do colgio.
Namorar, ento, estava fora de cogitao.
Kate sentia-se como uma prisioneira, sem chances de liberdade, j que no possua ningum, no mundo.
Quando se rebelava contra a tia, esta a ameaava, dizendo que a mandaria para uma instituio de caridade.
No fundo, Kate achava que Annabelle Burnett no seria capaz disso. Mesmo assim, sentia medo de suas ameaas.
Depois de concluir o segundo grau, Kate resolvera trabalhar. Annabelle, porm, fora radicalmente contra a idia.
Kate insistira... em vo. Tia Annabelle, porm, era irredutvel em suas decises.
O namoro com Stanley, que morava do outro lado da rua e era dois anos mais velho que Kate, comeara como que por acaso.
Ambos se encontraram na padaria e comearam a conversar. A simpatia fora imediata e, a partir da, viviam arranjando pretextos para se ver.
Kate, que como a maioria das adolescentes adorava ler romances e sonhava com seu prncipe encantado, no tardara a se apaixonar.
Cercando-se de precaues, para que tia Annabelle no descobrisse seu segredo, ela sentia-se como as herona dos romances que devorava.
O namoro durara apenas algumas semanas. Uma vizinha bisbilhoteira contara a Annabelle que vira sua sobrinha num banco de praa, de mos dadas com um rapaz.
Isso fora o suficiente para que a velha senhora armasse um verdadeiro escndalo.
Humilhada, Kate jurara fugir para sempre daquela casa, daquele bairro provinciano onde as pessoas no sabiam respeitar sua privacidade e muito menos seus sentimentos.
Nos meses seguintes, ela ainda se encontrara com Stanley, algumas vezes. Mas ele mostrava-se reticente, como se j no quisesse a continuidade do namoro. Pouco depois, anunciaria sua partida para uma universidade da Califrnia.
O primeiro sonho romntico de Kate se desvanecera. E ela julgara-se a mais infeliz das garotas.
Mais tarde, o mundo lhe mostraria que havia desiluses bem piores.
Com o tempo, Kate havia aprendido a amar e aceitar tia Annabelle, apesar das diferenas que existiam entre ambas. Afinal, aquela senhora amargurada e excessivamente severa a recolhera em sua casa. E se a cercava de proibies e regras antiquadas, era porque julgava estar agindo corretamente.
Tia Annabelle falecera pouco depois de Kate completar dezenove anos. Com a parca herana que recebera, Kate pagara as despesas mdicas, comprara um Escort quase novo e alugara um apartamento pequeno, num bairro tranquilo de Jackson.
Arranjara um emprego na Biblioteca Municipal, que ficava prxima ao lugar onde morava. O trabalho a agradava bastante. E, assim, Kate resolvera cursar Biblioteconomia.
Trabalhava durante o dia todo e estudava  noite. Sentia-se livre, mas tambm solitria.
Estava cursando o terceiro semestre, quando conhecera Bernard Doyle, um rapaz extrovertido e alegre, muito popular entre os estudantes.
Tal como muitas outras garotas, Kate admirava-o e, secretamente, sentia-se atrada por ele.
Quando Bernard a convidara para acompanh-lo a um jantar danante, promovido pelo centro acadmico, Kate mal pudera caber em si, de tanta alegria.
Uma semana depois, ambos comeavam a namorar.
Kate voltara a construir seu castelo de cartas. Apesar de j ter vinte anos, continuava sonhadora, como na adolescncia.
O excesso de romantismo a impedia de ver, com clareza e bom senso, a situao em que se encontrava.
Para ela, Bernard Doyle era o prncipe encantado com quem sempre sonhara.
Para Bernard, ela era apenas mais uma, entre as muitas garotas bonitas que ele adorava cortejar.
Quatro meses mais tarde, Kate ficara grvida. E se a princpio sentira-se assustada com a perspectiva de ser me, logo se tranquilizara.
Tinha certeza de que Bernard a apoiaria, incondicionalmente. Mas a reao dele fora bem outra...
Kate sofrera uma terrvel desiluso.
A despeito da insistncia de Bernard para abortar o beb, ela decidira levar adiante a gravidez. Ele ento lhe dissera que no estava preparado para ser pai. E que jamais poderia assumir aquela criana.
Kate, porm, mantivera-se firme em sua deciso de ser me.
No fundo, acalentava a esperana de que Bernard mudasse de idia, quando o beb nascesse.
Porm, ele partira de Jackson dois meses antes da chegada de Jonathan ao mundo.
Fora chamado para trabalhar em uma grande empresa e no podia perder essa oportunidade. Ao menos era isso que dizia a carta breve, um tanto seca, que deixara para Kate.
A partir daquele momento, ela decidira nunca mais contar com ningum. Teria seu filho sozinha, construiria para ele um mundo seguro, cheio de compreenso, delicadeza, confiana... Amor. Essa palavra poderia resumir tudo o que Kate queria, para seu beb.
Com muita fora e determinao, ela realizara esse objetivo.
Kate afastou as lembranas, voltando ao momento presente. Um sorriso insinuou-se em seus lbios. De fato, havia conseguido cumprir sua promessa, dando a Jonathan um mundo estvel, seguro, cheio de afeto.
Era verdade que ambos levavam uma vida modesta. Mas viviam com dignidade e eram felizes. Se no sobrava dinheiro, tampouco faltava, para pagar as contas.
 Contas...  Kate murmurou, enquanto seus olhos verdes se arregalavam, numa expresso de susto.  Santo Deus!
S agora lhe ocorria que teria de pagar suas despesas, naquele hospital. E no precisava refletir muito, para concluir que as economias de que dispunha no dariam para tanto.
Alm do mais, tinha pedido demisso da Biblioteca Municipal de Jackson, onde trabalhara durante anos. Automaticamente, perdera o direito ao convnio mdico dos funcionrios municipais da cidade.
A aflio de Kate crescia. At o presente momento, ela nem sequer tinha cogitado sobre sua situao financeira.
Tambm, estivera organizando os pensamentos, depois de um perodo de inconscincia.
Fora muito bom retornar a esse mundo... O mundo de Jonathan, de Richard MacNeal, da vida em si.
Mas nem tudo eram flores, Kate filosofou, tocando delicadamente as ptalas rosadas dos gernios que estavam a seu lado, na mesinha.
Havia tambm as dificuldades e, naquele instante, as financeiras pareciam ser as mais assustadoras.
As despesas do hospital deviam ser astronmicas, ela pensou. S a estada na unidade de terapia intensiva teria um custo milionrio.
Kate apertou as tmporas, que comeavam a latejar, devido  tenso que a dominava.
Sabia que no devia se desgastar, pois isso prejudicaria sua recuperao. Mas como manter a calma, se acabava de descobrir que estava literalmente falida?
Tinha desmontado seu apartamento em Jackson e vendido todos os mveis. Trouxera consigo, para Memphis, apenas os utenslios domsticos, aparelhagem de som e vdeo, bem como objetos pessoais seus e de Jonathan.
Alugara um apartamento pequeno, mas confortvel, num bairro calmo e arborizado, perto de uma escola experimental, onde conseguira um bom trabalho, como bibliotecria.
A escola era tima e Kate matriculara Jonathan no jardim-de-infncia. Ela deveria comear a trabalhar na semana seguinte. Seria maravilhoso poder estar to perto de Jonathan. Fariam as refeies juntos e teriam mais tempo um para o outro...
Mas, ento, algo ocorrera. Algo que fora como um corte na nova sequncia vida que se anunciava.
Kate contraiu o rosto, numa expresso de dor. No se tratava de dor fsica, mas espiritual.
Ela havia planejado to bem a mudana para Memphis... Tinha enviado seu currculo  escola experimental e exultara ao ser aceita. Depois, procurara cuidadosamente um bom apartamento, num local tranquilo, para morar. Encontrara um que lhe parecera perfeito, no s pela localizao, mas tambm pelo preo do aluguel. Com as economias de que dispunha, ela pagara seis meses adiantados ao proprietrio, que chegara a fazer um abatimento, no total.
 Oh, Deus...  Kate lamentou-se, baixinho, ao lembrar-se do dia em que havia chegado a Memphis.
Entrara na cidade por volta da hora do almoo, com o carro carregado de bagagem. Descarregara tudo no novo apartamento. O porteiro do prdio, muito solcito, a ajudara. E Jonathan tambm, claro.
Kate recordava muito bem do quanto o garotinho se mostrava entusiasmado com a nova vida que levariam, dali por diante.
Kate passara uma boa parte da tarde arrumando o novo apartamento. Depois, sara com Jonathan para pesquisar preos de mveis.
No final da tarde, parara numa lanchonete para tomar um lanche, com o filho. E ao voltar para casa...
A as recordaes se interrompiam. E Kate logo descobriu o motivo:
 O acidente  concluiu, em voz alta.
Estava voltando para casa quando, ao entrar numa rua, batera no jipe de Richard. Depois, uma caminhonete fizera seu Escort rodopiar e chocar-se contra um poste.
O resto, ela j sabia. Richard MacNeal havia lhe contado tudo, em detalhes.
A conexo entre os fatos estava completa, agora. Quanto a ela, sentia-se tensa, assustada com a falta de perspectivas para o futuro.
Como no voltara mais  escola experimental, era bvio que perdera seu emprego. A direo, quela altura, j devia ter encontrado uma pessoa para ocupar seu cargo, na biblioteca.
Isso significava que ela no teria um salrio, no final do ms. Tampouco poderia desfrutar de um convnio-sade.
Kate pressionou as tmporas. Tinha de se acalmar, embora no houvesse nenhum motivo para tanto...
Estava desempregada e sem perspectivas de conseguir trabalho. Afinal, quem contrataria uma pessoa recm-acidentada, que ainda trazia no corpo as marcas de escoriaes? Ela precisaria de algum tempo para se recuperar totalmente. Mas, at l, como viveria?
Bem, ao menos possua um teto para se abrigar, durante os prximos meses. Mas no tinha mveis e tampouco poderia compr-los.   ,
Seria mais prudente poupar as economias guardadas no banco, para sobreviver at que a situao melhorasse.
Uma leve batida na porta interrompeu os pensamentos de Kate. No momento seguinte, a porta se abriu, dando passagem ao ser que era sua razo de viver.
 Mame!
Jonathan precipitou-se em sua direo.
 Meu querido...
Kate esqueceu-se momentaneamente de todas as aflies, para entregar-se  felicidade de rever o filho.
 Lembra-se do que ns conversamos, Jonathan?  Richard acabava de entrar no quarto.  Sua me ainda est convalescendo e, por isso, voc deve tomar cuidado para...
Richard interrompeu-se.
Tambm, Jonathan nem sequer o ouvia. Galgando a pequenina escada metlica de trs degraus, que dava acesso ao leito de Kate, ele atirou-se em seus braos.
Kate o beijava, afagava-lhe os cabelos, apertava-o contra si.
 V com calma, Jonathan  Richard recomendou, mais uma vez... Em vo.  Est bem, eu desisto.
Kate chorava de alegria. O mundo tinha vrias facetas, ela pensou, aconchegando o filho no peito. Momentos atrs, ela se afligia com a falta de perspectivas para o futuro. Agora, mal cabia em si de tanta felicidade. A vida era mesmo uma somatria de alegrias e dificuldades.
	Voc est lindo, meu filho  disse Kate, observando o garotinho com ateno.  Mas no conheo essas roupas...
	Foi Alice quem comprou. Richard tambm vive me dando presentes. Os dois so muito bonzinhos, sabe?
	Disso no tenho a menor dvida, querido  Kate respondeu, sorrindo. Voltando-se para Richard, cumprimentou-o:  Como vai?
	Bem... E voc?
	Feliz.
	Claro. Que bobagem, a minha, perguntar.
	Obrigada por mais este presente  Kate agradeceu.  Acho que eu necessitava mais da presena de meu filho, do que de qualquer outro medicamento, para sarar de vez.
	O afeto  um dos remdios mais poderosos que conheo  Richard sentenciou.
	Tem razo. Se no fosse seu afeto, talvez eu nem houvesse regressado das sombras.
	Ora...
Kate fitou-o com ternura. Estava comeando a adorar o modo como Richard sorria, quando ficava embaraado. Era comovente ver um homem to belo portar-se como um garoto pego em meio a uma travessura.
	Mame, tenho um milho de novidades para contar  Jonathan anunciou.
	Um milho?!  Kate repetiu, entre divertida e emocionada.  Ento,  bom comear logo. Seno o horrio da visita terminar, antes que voc chegue  metade.
Jonathan comeou a tagarelar alegremente, para total deleite dos adultos. Contou sobre os passeios que tinha feito com Alice e Richard, sobre os brinquedos e roupas que ganhara, sobre o dia-a-dia no apartamento, os programas de tev a que assistia, as crianas com quem comeara a fazer amizade, no edifcio...
 Seu filho tem uma memria impressionante  Richard comentou, a certa altura.  Nem eu mesmo me lembraria de tantos detalhes.  E num tom carregado de admirao, cumprimentou Kate.  Parabns. Voc tem feito um timo trabalho, com Jonathan.
Foi a vez de ela ficar embaraada.
O pequeno Jonathan, porm, continuava contando suas aventuras e peripcias. Empolgado, no percebia os olhares significativos que Kate e Richard trocavam, vez por outra.
A sra. Andersen entrou no quarto, para anunciar que faltavam apenas dez minutos para o final do horrio de visitas.
Jonathan sorriu, ao v-la. E a sra. Andersen convidou-o a tomar uma xcara de chocolate, na cantina.
O garotinho aceitou, depois de beijar afetuosamente a me e acenar para Richard:
	At logo, amigo.
	At... Ns nos veremos na cantina, daqui a pouquinho.
A sra. Andersen comentou, com entusiasmo, a recuperao de Kate. E fez questo de frisar que a dedicao de Richard, durante o perodo mais crtico, tinha sido fundamental para que isso ocorresse. S ento saiu, de mos dadas com o pequeno Jonathan.
A ss com Kate, Richard tomou-lhe a mo entre as suas.
	Acho que nem preciso perguntar se voc est feliz...
	Por rever Jonathan?  ela completou.  Nenhuma palavra poderia descrever esse misto de alvio e alegria que estou sentindo.
Richard fitou-a com intensidade, antes de dizer:
 Acredito nisso, mas... Estou enganado ou h uma certa aflio, em seus lindos olhos?
Kate surpreendeu-se com a percepo daquele homem.
	Voc est comeando a me conhecer bem mais do que deveria, sr. MacNeal...  disse, forjando um sorriso. Aps uma pausa, acrescentou:  Mas, falando srio e sinceramente, estou de fato preocupada.
	Com qu?  Richard indagou.  As coisas no poderiam ser melhores. Voc est se recuperando com uma rapidez impressionante, seu filho vai muito bem e...
	E o futuro, Richard?  ela o interrompeu, tensa.
	O futuro ser uma decorrncia natural do presente  ele respondeu, com simplicidade.  O dia de amanh resultar de tudo o que fizermos de bom, hoje.
 Seu otimismo  comovente.  Kate fitou-o com ternura.  Mas temo que a realidade no seja to promissora quanto voc pensa.
Ele sorriu, enquanto acarieiava-lhe os cabelos loiros.
	Sabe de uma coisa, Kate Burnett? Voc no deve pensar no futuro. Concentre suas energias apenas no presente e procure desfrutar tudo o que puder. At ontem, voc estava inconsciente, correndo risco de vida. Hoje, voc se encontra totalmente fora de perigo. Isso no a deixa feliz?
	Claro  ela reconheceu, com um profundo suspiro.  O fato de ter sado daquele limbo onde me encontrava causa-me um alvio indescritvel. Mas voc sabe que a vida  feita de alegrias e preocupaes. E no posso ignorar o futuro sombrio que me aguarda.
	Como pode ser to pessimista, Kate Burnett? Isso chega a ser uma blasfmia contra a prpria vida! Voc  jovem, bonita, est se recuperando a olhos vistos, tem um filho lindo e...
	Tambm estou desempregada, numa cidade estranha, com poucas economias no banco e nenhuma perspectiva  Kate completou, num tom amargo.  O que me diz disso, Richard MacNeal?
Ele fitou-a com espanto. E Kate, num desabafo, contou-lhe a situao em que se encontrava.
	Terei de ficar inativa, at que consiga me sentir realmente bem, para procurar um novo emprego  ela afirmou, depois de lhe falar sobre o trabalho que conseguira, na biblioteca experimental.  A essa altura, a direo j deve ter contratado outra pessoa.
	 provvel que sim  Richard concordou, pesaroso.
	Provvel, no  Kate o corrigiu.   certssimo.
	Tem razo. Mas aposto que a vaga de Jonathan, na escolinha, est garantida.
	Sem emprego, no terei como pagar as mensalidades. Possuo minhas economias, mas terei de poup-las, at voltar a trabalhar.  Kate fez uma pausa.  Ao menos poderei morar, por algum tempo, sem preocupaes com o aluguel.  E esclareceu:  Paguei seis meses adiantados, ao proprietrio. Mas vendi meus mveis, em Jackson. E no comprei outros.
	Aos poucos, voc conseguir se reestruturar. Mas precisa ter pacincia, Kate. O mais importante de tudo  que voc est fora de perigo. O resto, vir depois.
	Se minha situao se restringisse ao desemprego e a um apartamento sem mveis, ainda seria suportvel. O pior  que estou com uma dvida imensa, para pagar. E no tenho a menor idia de quando ou como poderei liquid-la.
	Que dvida?  Richard perguntou, interessado.
	Ainda no sei o valor exato. Mas posso imaginar o preo astronmico do tratamento que venho recebendo, neste hospital.
	Quanto a isso, no se preocupe.
Ignorando as palavras de Richard, ela pensou, em voz alta:
	Talvez eu possa dar o Escort, como garantia. Se  que ele ainda vale alguma coisa, depois do acidente.
	Seu carro encontra-se no ptio do departamento de trnsito  Richard informou-a.  Mas receio que voc s poder vend-lo para o ferro-velho.
Kate suspirou, desalentada.
 Tudo bem. De certo modo, eu j imaginava que no haveria outro jeito. Assim, voltamos ao ponto inicial: no possuo seguro-sade e, ao demitir-me do emprego em Jackson, perdi o convnio ao qual tinha direito.
 Kate, no sei se voc me ouviu quando lhe disse que assumi o custo de seu tratamento, aqui no Baptist Hospital...
 Como?  ela reagiu, espantada.
Richard sorriu, ao recomendar:
	Fique tranquila, ao menos quanto a isso. J me encarreguei de tudo.
	Mas no  justo!  ela exclamou, aflita.  Voc j fez tanto por mim...
	No quero discutir esse assunto.  Richard tomou-lhe a mo entre as suas.  Vou pagar as custas de seu tratamento e pronto. Fao questo disso.
Kate fechou os olhos, por um instante. Justo ela, que detestava depender dos outros, estava numa situao terrvel. E no podia continuar assim.
Tomando flego, controlando a inquietao que a afligia, tentou impor um tom calmo  voz:
	Escute, Richard MacNeal, voc me deu presentes que jamais poderei retribuir. Presentes sem preo, de valor impalpvel. Ofereceu-me seu apoio, afeto, solidariedade... Mas agora estamos lidando com outra questo. O custo de meu tratamento  de ordem material.
	Sei disso, sra. Burnett  ele gracejava, para aliviar a tenso.
	Estou falando srio, Richard.
	Eu tambm, Kate.
	Voc tem noo da dvida que est assumindo? Por acaso j tentou ver em quanto est o oramento de minha estada aqui?
	J. Sei muito bem o que estou fazendo. E, acredite, posso perfeitamente arcar com essas despesas.  Richard fez uma pausa, antes de declarar:  Sou um homem razoavelmente rico, Kate. Garanto-lhe que esse gasto no afetar meu oramento.
Ela ficou em silncio, por alguns instantes. Por fim, cedeu.
	Est bem, eu concordo. Mesmo porque, no estou em posio de recusar tamanha generosidade.
	Ah, at que enfim voc demonstra um pouco de bom senso.  Ele sorria e era como se todo o ambiente ao redor se iluminasse.  Sabe de uma coisa, Kate? Acabo de descobrir que voc  uma cabea-dura.
Ela no pde deixar de sorrir:
	Voc tambm no deve ter um gnio l muito dcil...
	Tente me conhecer melhor e ver.
Ambos se calaram. Consultando seu corao, Kate descobriu que sim, que adoraria conhecer Richard MacNeal a fundo.
Ele era o primeiro homem, desde seu relacionamento com o pai de Jonathan, que lhe despertava essa vontade.
 Aceitarei sua generosidade  ela repetiu, com os olhos fixos nos de Richard.  Mas com uma condio...
 Sem condies  ele protestou. Ignorando o aparte, Kate concluiu:
	Quero lhe pagar essa dvida, assim que puder. Com certeza, pedirei a voc para parcelar, mas...
	Sem condies  Richard repetiu. Com uma expresso subitamente triste, acrescentou:  Afinal, eu fui o nico responsvel pelo acidente.
	Oh, no!  Kate o repreendeu, num tom carinhoso, mas firme.  L vem voc com essa estria maluca, de novo. De onde tirou essa idia absurda?  Antes que ele respondesse, ela recordou:  Lembro-me de que voc disse que tinha um motivo para pensar assim... E que algum dia me contaria. Que tal agora?
 Ainda no, querida.  Inclinando-se, Richard beijou-a na testa.  Vamos esperar que voc esteja mais forte.
Os olhos de ambos se encontraram, por um longo momento.
"Querida", Kate repetia, em pensamento, depois da sada de Richard. Havia tanto tempo que ningum a chamava assim...
 Querido Richard MacNeal  ela murmurou, presa de uma forte emoo.  Serei sua eterna devedora.

CAPTULO IX

Acomodada no banco traseiro do Mercedes de Richard, Kate olhava as ruas de Memphis como se contemplasse a mais bela paisagem do mundo.
Tinha recebido alta no Baptist Hospital e Richard fora busc-la. Por exigncia dele, Kate ocupava o banco traseiro do veculo.
Na verdade, ela bem que teria preferido sentar-se ao lado de Richard, na frente. Mas ele no havia permitido:
 Voc ainda est convalescendo. No pode se arriscar. Alm disso, ficar bem mais confortvel, tendo um banco inteiro para se acomodar.
Agora, ali estava ela, recostada em almofadas forradas de cetim.
	Est se sentindo bem?  Richard indagou, fitando-a atravs do espelho retrovisor.
	Voc j me fez essa pergunta uma dezena de vezes, desde que chegou ao hospital  ela retrucou, sorrindo.  Sim, Richard, estou tima. Passei quase trs semanas internada e sinto-me pronta para reiniciar minha vida.
	Com muita f no futuro?  Ele sorriu de volta.
	Sim  Kate respondeu, sem relutar.
Nos vinte dias que passara no hospital, ela havia tido tempo para refletir longamente. A princpio a conscincia de sua situao financeira a afligira. Mas, depois, Kate resolvera encarar essa dificuldade com firmeza e determinao. Afinal, no seria a primeira vez que teria de enfrentar um duro obstculo.
Era final de primavera, em Memphis. A temperatura estava particularmente agradvel, naquele incio de tarde.
Kate experimentava uma indescritvel sensao de bem-estar. Estava totalmente recuperada, tinha um filho maravilhoso e, ainda por cima, contava com pessoas incrveis como Richard e Alice MacNeal.
Kate sorriu ao lembrar-se da visita que Alice lhe fizera, no hospital, cerca de dez dias atrs.
Estivera esperando por Richard e Jonathan mas, em vez disso, recebera a visita de Alice MacNeal.
A simpatia entre ambas fora imediata. A conversa flura fcil, sincera, alegre.
Kate emocionara-se ao ver Alice referindo-se a Jonathan como se ele fosse seu neto. Isso a ajudara a abrir seu corao para aquela mulher de personalidade forte, determinada e gentil, como o filho.
Outra visita que a comovera fora a do motorista da caminhonete, Charles Albert Oak. O homem fizera questo de v-la e levara-lhe uma caixa de bombons. Conversara animadamente, demonstrando a todo momento seu alvio por v-la quase totalmente recuperada.
	Nos ltimos dias, estive tomando certas providncias  Richard anunciou, interrompendo-lhe os pensamentos.
	Sim?  Kate indagou.  Que tipo de providncias?
	Vendi seu carro para um ferro-velho e entrei em contato com a escola experimental onde voc ia trabalhar. Tal como prevamos, a direo j contratou outra bibliotecria. Mas a matrcula de Jonathan continua vlida. Ele pode comear a frequentar as aulas at amanh, se quiser.
 Richard MacNeal, ser que algum dia conseguirei agradec-lo devidamente por tudo o que est fazendo por mim?
 Ora...  Ele sorriu, um tanto embaraado.
Kate ia dizer algo, mas reparou que Richard estava entrando numa avenida que conduzia justamente  direo oposta a que ela morava.
 Voc errou o caminho  ela o advertiu.
J fazia vrios dias que tinha dado a Richard o endereo do prdio no qual alugara o apartamento.
	O edifcio fica para l  Kate apontou na direo correta.  Lembra-se?
	Claro. Estive em seu apartamento outro dia, como alis j lhe contei. Informei ao porteiro sobre o que aconteceu e disse-lhe que voc voltaria, to logo estivesse recuperada. A propsito, dei-lhe o nmero de meu telefone, para contato.
	timo. Como sempre, voc no se esqueceu de nenhum detalhe.
	E por falar em detalhes, depositei o dinheiro da venda de seu carro em sua conta. Voc me deu o nmero, na semana passada.
	 verdade. Bem, obrigada, mais uma vez.  Inclinando-se, ela tocou-lhe o ombro.  Voc continua na direo errada. Eu moro para o outro lado...
	Eu sei.
	Ento, por que no faz o retorno?
	Porque no estamos indo para sua casa.
	No?  Kate repetiu, surpresa.  Mas eu achei que...
 Vou lev-la a meu apartamento, onde voc ficar melhor acomodada  ele informou, interrompendo-a.  Alis, Jonathan e mame esto ansiosos por sua chegada. Parece que ela resolveu preparar uma da quelas tortas maravilhosas. E tambm panquecas, claro, a pedido de Jonathan. No sei se  exatamente da panqueca que ele gosta, ou daquela frigideira que em forma de gato.
Kate suspirou profundamente. Precisava tomar uma posio, perante Richard. Mas no queria ofend-lo. Por isso declarou, cautelosa:
	Agradeo sua boa vontade. Mas no acha que est na hora de eu retomar minha vida? Voc j me ajudou tanto, Richard. Agora, pode deixar, que me cuidarei sozinha.
	No duvido, Kate Burnett. Mas preciso ter certeza de que voc estar realmente bem. Por isso, quero mant-la como hspede, por alguns dias.
Kate franziu a testa, com ar pensativo.
	Voc no est sendo excessivamente paternal, Richard MacNeal?
	E voc no est sendo excessivamente teimosa, Kate Burnett?
Ela no pde deixar de sorrir:
 Quem  o mais cabea-dura de ns dois?
 Voc, claro  ele respondeu, sem hesitar. E ambos desataram a rir.
	Voc  a pessoa mais incrvel que j conheci  disse Kate, aps alguns instantes.  Mas acho que j no precisa se preocupar comigo.
	E quem disse que me preocupo?  Richard tentava gracejar mas, no fundo, estava pensando no que faria quando Kate sasse de sua vida, definitivamente.
Os dias que se seguiram foram, para Kate, uma espcie de sonho dourado.
A realidade parecia perfeita demais, para ser verdadeira... E s vezes ela se perguntava at quando duraria aquele paraso.
O dia comeava bem cedo, no apartamento de Richard. Ele se levantava por volta de seis e meia. A essa altura, Alice e Jonathan j estavam em p, preparando o desjejum.
Quando Kate entrava na cozinha, encontrava-os em plena atividade, tagarelando alegremente. Ajudava-os a pr a mesa e ento Richard chegava, j pronto para ir trabalhar, usando um de seus elegantes ternos de vero, os cabelos negros ainda midos do banho recm-tomado, a suave fragrncia de loo ps-barba, o sorriso cativante estampado no rosto de traos perfeitos.
 Bom dia.  Ele saudava a todos e ento cumprimentava um por um.
Para Alice, um beijo nos cabelos grisalhos. Para Jonathan, um abrao que o erguia do cho. E, para ela, um beijo na face.
O desjejum comeava, num clima alegre e agradvel. Todos conversavam sobre os projetos para o dia que se iniciava e ento Richard se despedia.
Depois do caf, Alice e Jonathan iam passear numa praa que ficava a poucos quarteires de distncia apartamento. Os dias estavam cada vez mais quentes e Jonathan j anunciava, com entusiasmo, que logo poderia frequentar a piscina do edifcio.
Kate ficava sozinha durante uma boa parte da manh. E era nessas horas que refletia longamente.
No poderia estar melhor do que ali, no apartamento de Richard, onde recebia tanto afeto, considerao, respeito, enfim... Tudo o que sempre desejara.
Havia momentos em que tinha a ntida sensao de que aquela era sua verdadeira e nica famlia. E chegava a se comover at as lgrimas.
Alice costumava dizer que ela era a filha que jamais tivera. Cobria-a de carinho e presentes.
Alis, fora Alice quem lhe dera as roupas com que voltara do hospital. E, ao chegar ao apartamento, Kate encontrara um guarda-roupa completo, na sute que Alice lhe preparara.
 No sei se so do seu gosto, querida  ela dissera, abrindo o guarda-roupa de par em par.  Mas voc precisar de algo para vestir, nos prximos dias.
Kate agradecera, emocionada. Na verdade, nunca tivera tantas roupas, de to boa qualidade, em sua vida.
Sim, Kate pensava, certa manh, depois que Richard, Alice e Jonathan haviam sado. Ela no tinha do que ou por que reclamar. Mas tinha de seguir seu caminho, retornar a seu mundo... E esse mundo no era composto por Richard e Alice, mas sim por ela e Jonathan.
Kate temia que o filho ressentisse, por demais, o afastamento de Richard e Alice. Seria preciso lev-lo para visit-los, com frequncia, at que ele se desligasse naturalmente de ambos. Pois Jonathan os adorava. Por pura brincadeira, tinha comeado a chamar Alice de vov, alguns dias atrs.
Como era de se esperar, Alice adorara a idia. Chegara mesmo a dizer que era uma honra ter um neto to inteligente e encantador.
Kate, assim como Richard, comovia-se com a bela relao de ambos.
Mas Kate receava que de repente Jonathan resolvesse conceder a mesma honra a Richard, chamando-o de papai.
S de pensar nessa possibilidade, ela estremecia. Por tudo isso, e muito mais, Kate sabia que precisava afastar-se daquele homem com a maior urgncia possvel.
Nos ltimos dias em que estivera no hospital, comeara a esperar pela visita de Richard com uma ansiedade to intensa, que chegava a fazer-lhe mal.
Ele nunca se atrasava. Mas nem por isso a aflio de Kate diminua.
Depois que Richard ia embora, ela rememorava o encontro de ambos. Cada momento, cada gesto, cada olhar tinha um significado especial.
Certa noite, aps a partida de Richard, Kate descobrira o quanto aquele homem estava se tornando importante, em sua vida.
E no era para menos. Afinal, o que Richard fizera por ela no tinha preo.
Mas Kate, apesar de ter apenas vinte e cinco anos, era uma mulher inteligente. No gostava de enganar os outros e muito menos a si prpria. Logo havia constatado que seus sentimentos por Richard MacNeal iam muito alm da simples gratido.
Julgando que talvez se sentisse assim por estar carente, frgil, saindo de uma convalescena, Kate decidira esperar, antes de tirar concluses precipitadas.
Agora, ela j no tinha dvidas. Os sintomas de sua paixo por aquele homem eram evidentes demais, para serem ignorados.
s vezes ela despertava em plena noite e ficava sonhando com o momento em que ele lhe daria um beijo, antes do desjejum.
E quando, certa manh, os lbios de Richard deslizaram para perto dos seus, Kate mal pudera conter o mpeto de atirar-se em seus braos.
Andando de um lado a outro da sala do apartamento silencioso, Kate despedia-se de cada objeto, cada mvel... Estava na hora de partir.
Naquela noite, quando Richard chegou da Data Enterprises, fitou-a com surpresa e admirao.
 Voc est linda, sabia?
De fato, Kate havia se aprontado com muito esmero, para receb-lo.
Estava usando um vestido novo, azul-cobalto, que valorizava-lhe as formas do corpo bem-feito. O decote, um tanto ousado, deixava adivinhar os seios pequenos e firmes.
Depois de escovar longamente os cabelos, Kate prendeu-os num coque, sobre a nuca.
Aplicou uma leve maquiagem no rosto e mirou-se com ma expresso crtica.
Estava realmente bela, constatou, sorrindo para a imagem refletindo no espelho.
No pescoo, Kate usava um fino cordo de ouro, muito delicado.
Tanto a jia quanto o vestido, bem como os complementos, tinham sido presentes de Alice.
Depois do almoo, quando Jonathan pegara no sono diante de um programa de desenhos animados da televiso, Kate a chamara para conversar.
Delicadamente, expusera a necessidade de dar seguimento a sua vida.
A primeira reao de Alice fora chorar baixinho e pedir-lhe que no se fosse, que ficasse por mais algum tempo.
Mas Alice, alm de sentimental, era tambm uma mulher inteligente. E acabara compreendendo sua posio.
	Richard ficar muito ressentido com sua partida, minha filha  comentara, com pesar.  Portanto, tente dar-lhe a notcia do modo mais suave possvel.
	No tenha dvidas sobre isso, Alice  Kate dissera, com veemncia.
Agora, ali estava ela, sentada no sof da sala, diante do homem por quem seu corao pulsava acelerado... O homem mais maravilhoso que j conhecera.
	Voc vai sair?  Richard perguntou, fitando-a com tamanha intensidade, que ela chegou a enrubescer.
	Vou, mas no sozinha  Kate respondeu, com uma ousadia que chegou a surpreend-la.  Preciso de um cavalheiro gentil, para me acompanhar. E no conheo ningum mais gentil do que Richard MacNeal.
Ele sorriu, daquele modo cativante, e Kate teve de fazer um intenso esforo para no atirr-se em seus braos.
	Voc me daria alguns minutos?
	Todo o tempo do mundo, sr. MacNeal.
	Ento, com licena.  Richard caminhou em direo ao corredor que conduzia a sua sute. Porm deteve-se e voltou-se para perguntar:  Onde esto mame e Jonathan?
	Foram  festa de aniversrio de um garotinho aqui do condomnio.
	Certo.  Richard afastou-se.
Pouco depois, ele retornava  sala. E, dessa vez, era Kate quem perdia o flego.
Usando cala bege, camisa branca e blazer, Richard parecia mais belo e atraente do que nunca.
 Vamos?  Ele tomou-lhe o brao. Pouco depois, ambos deixavam o condomnio.
Richard costumava usar o jipe, para ir trabalhar, e o Mercedes para passeios ou viagens.
Agora, ele dirigia o Mercedes rumo a um bairro famoso por seus inmeros teatros, restaurantes e casas noturnas.
	Aonde voc quer ir?  perguntou a Kate.
	A um lugar tranquilo, onde possamos conversar.
	Ento, acho que voc gostar do Tennessee Star. Trata-se de um dos melhores restaurantes da cidade.
De fato, o Tennessee Star era um local agradvel, ideal para saborear timos pratos e conversar com total privacidade.
O restaurante funcionava no alto de uma ladeira, num antigo casaro, muito bem conservado. Havia um salo principal e outros, menores, com poucas mesas.
Richard devia ser um cliente habitual, Kate deduziu, ao ver a deferncia com que o maltre e os garons o tratavam.
	A mesa de sempre, sr. MacNeal?  o maltre perguntou.
	Sim...  Richard respondeu, amavelmente. Voltando-se para Kate, disse:  No sei se voc aprovar.
	Para mim,  perfeito  Kate opinou, ao ver a mesa isolada numa varanda, que oferecia uma bela vista da cidade.
Pouco depois, ambos saboreavam um drinque, enquanto liam o cardpio. Kate bebericava um martni e, Richard, um usque.
	Que prato voc prefere?  ele perguntou.
	Gosto de carne branca... Mas aceito sugestes.
	Que tal fil de peixe acompanhado por frutos do mar e arroz?  Richard props.
	Est aprovado!  Kate sorriu.
	E para beber?
	Voc escolhe. No entendo muito desse assunto. S sei que o vinho branco  ideal para acompanhar peixe.
	Que tal um californiano, gelado na temperatura correta?
	J disse que voc  quem sabe.
	Ento, est decidido.  Richard fez sinal ao garom, para que se aproximasse.
A refeio foi servida logo depois. No poderia estar mais saborosa.
Kate comeu com muito apetite e Richard tambm. No final, enquanto tomavam licor, ele comentou:
	Sou mesmo um idiota, no?
	Por que diz isso?
	Porque voc j se recuperou h vrios dias e eu nem a convidei para sair.  Aps uma pausa, ele acrescentou:  Precisamos fazer isso mais vezes.
Kate sorriu, enquanto o rubor lhe subia s faces. Constrangida, ela baixou os olhos.
	Voc no acha que  uma boa idia?  Richard insistiu.
	Sim, claro.  Kate ergueu o rosto e o fitou por um longo momento.  Se o convidei para sair,  porque tinha um motivo.
	Voc queria um cavalheiro gentil para acompanh-la, lembra-se?  Richard acariciou-lhe a mo, por sobre a mesa.
Kate sorriu e anunciou:
	Preciso conversar com voc.
	Fale, por favor  ele pediu, curioso.  Estou ouvindo.
Um profundo suspiro brotou do peito de Kate:
	Tenho de retomar minha vida, sabe?
	Com certeza  ele concordou, sem hesitar.  Acho que voc vem fazendo isso, desde que saiu do hospital, no  mesmo?
Kate meneou a cabea.
	Na verdade, eu ainda nem comecei.
	Como no? Voc est totalmente recuperada. E lutou muito para chegar a este ponto.
Kate segurou-lhe a mo e fitdu-o nos olhos.
	Por favor, tente compreender: estou em seu apartamento, sendo tratada com todo o carinho e considerao, mas...
	Falta-lhe alguma coisa?
	Sim  Kate respondeu, com sinceridade.
	O qu?
	Independncia, Richard. Tenho de reassumir a direo de minha vida. E, para isso, preciso...
	Ir embora  ele completou.
Kate confirmou com um gesto de cabea. Penalizada, viu que os olhos azuis de Richard assumiam uma expresso de tristeza.
	De certa forma, eu j estava esperando por isso  ele confessou.  Tentei me preparar para este momento, mas... Bem... Acho que no consegui.
	Como assim?
	Est difcil me acostumar com a idia de perder voc e Jonathan.
	Mas voc no est nos perdendo  Kate afirmou, com veemncia.  Os laos que nos unem so indestrutveis, Richard. Apenas, precisamos retomar nossa vida.
	Eu entendo. Quando voc pretende ir?
	Amanh.
	Oh, no!
	Passei a tarde de hoje arrumando minhas coisas e as de Jonathan.
 Mas voc no pode sair assim... Mame ficar muito abalada.
	J conversei com ela, hoje, por volta da hora do almoo.
	E como mame reagiu?
	Ela compreendeu.  Kate esforou-se para sorrir.  Eu a fiz prometer que no deixar de nos visitar. Alice me deu sua palavra e exigiu que eu fizesse o mesmo.
	E quanto a Jonathan? Voc j conversou com ele?
	Ainda no. Prefiro no criar muita expectativa. Falarei com ele amanh cedo, do modo mais simples possvel. J ser muito difcil, para ele, separar-se de voc e de Alice. E no quero que a situao parea mais dramtica do que j .
Richard assentiu, em silncio. Kate baixou os olhos. De repente, a noite deixava de ser alegre para tornar-se tensa, triste e sombria.
Richard pediu a conta e, pouco depois, ambos saam do restaurante.
A noite estava fresca e agradvel. O vero j havia comeado.
Richard e Kate quase no conversaram, durante o trajeto de volta. Estavam quase chegando, quando ela indagou:
	Posso lhe pedir uma coisa?
	Tudo o que voc quiser, Kate Burnett.
	Por duas vezes, voc me disse que se sentia responsvel pelo acidente que sofri. Por duas vezes, eu lhe perguntei por qu. Voc ento respondeu que algum dia me contaria. Que tal hoje?
Richard havia acabado de entrar na rua do condomnio onde morava. Passou direto pela garagem e seguiu adiante.
 Se voc quer mesmo saber, ter de me acompanhar num ltimo licor. H um barzinho, aqui perto, bastante agradvel.
Kate concordou e, logo depois, ambos chegaram ao local.
Escolheram uma mesa na calada e fizeram o pedido.
Brindaram  beleza da noite estrelada e, por alguns instantes, saborearam a bebida em silncio.
 E ento?  Kate perguntou, num tom suave.  O que o faz pensar que foi culpado pelo que me aconteceu?  Antes que Richard respondesse, ela fez questo de esclarecer:  Estou retomando este assunto, no apenas por curiosidade, mas sobretudo por no achar justo que voc carregue esse remorso. Afinal, voc tem sido to generoso comigo, Richard...
Ele fitou-a com uma expresso amargurada. E ento comeou a falar.
Kate poderia imaginar tudo, menos que Richard tivesse perdido a esposa e o beb que estava por nascer, num acidente de automvel.
	A tragdia aconteceu numa estrada, prxima  divisa com o Estado de Arkansas.  A voz de Richard soava entrecortada pelo sofrimento.  Quando vi uma caminhonete vindo para cima de ns, tentei desviar. Mas, em vez disso, bati em cheio em um poste. Sa praticamente ileso, mas Stacy, que estava a meu lado, foi a mais atingida pelo golpe. Ela ficou em estado de coma por alguns dias e depois faleceu. Os mdicos tentaram salvar o beb, mas tambm no conseguiram.
	Oh, Richard...  Kate murmurou, com os olhos cheios de lgrimas.  Agora compreendo sua aflio. Voc tinha medo de que a tragdia se repetisse.
Ele assentiu com um gesto de cabea. O silncio caiu entre ambos. Kate estava penalizada. Nunca imaginara que aquele homem trouxesse, no peito, tamanho sofrimento.
	Escute, voc precisa entender uma coisa...  ela disse, por fim.
	O qu, minha doce Kate?  ele indagou, com uma expresso de infinita tristeza nos olhos azuis.
	A culpa no foi sua, em nenhum dos acidentes. Tire esse peso do ombro, de uma vez por todas. Caso contrrio, jamais conseguir viver em paz.
	Oh, j estou acostumado a isso  ele confessou, com um sorriso amargo.
	Mas no deveria  Kate retrucou.  Voc merece ser feliz, Richard.  Num impulso, Kate levantou-se da cadeira. Contornando a mesa, abraou Richard com fora.
Surpreso, ele tambm se ergueu. Assim, ambos ficaram abraados, por um longo momento, esquecidos do que se passava ao redor.
Os poucos clientes que estavam no bar repararam no belo casal. Alguns entreolharam-se, trocando um sorriso.
Porm nem Kate, nem Richard, se davam conta disso. Estavam unidos, tomados por uma forte emoo.
Do abrao ao beijo, foi apenas um passo.
E Kate descobriu que, de certa forma, estivera esperando por aquele beijo a noite inteira... Talvez a vida inteira.

EPLOGO

Puxa, mame, voc est to chata  Jonathan protestou, com uma expresso muito sria no rostinho angelical.
 V para o seu quarto e no discuta, est bem?  Kate ordenou, estranhando a rispidez da prpria voz.
Nunca se dirigia assim, ao filho. E, agora, tinha lhe dado uma bronca a troco de nada.
O fato era que estava tensa, irritadia, fazendo tempestades em copo de gua.
Tinha deixado o apartamento de Richard uma semana atrs. Comprara uns poucos mveis, apenas o estritamente necessrio para comear a se organizar.
Mas faltavam muitas coisas, para que o apartamento ficasse realmente agradvel.
Jonathan estranhara muito aquela mudana.
E ela no estava menos abalada. Mas era preciso retomar sua rotina, Kate se lembrava, a todo momento. No fazia sentido ficar indefinidamente desfrutando um estilo de vida que, afinal, no era o seu.
O problema era que Jonathan no podia compreender essa verdade to simples. Felizmente, Alice dera-lhe uma tev porttil, como presente de despedida.
Assim, Jonathan podia ao menos assistir a seus desenhos preferidos.
O garotinho ligava todos os dias para Richard e Alice. Kate pedia-lhe que mandasse abraos e beijos para ambos. s vezes falava com Alice, mas evitava o contato com Richard.
Estava irremediavelmente apaixonada por aquele homem. E sabia que Richard de algum modo se sentia atrado por ela. Mas no julgava possvel que ele um dia chegasse a am-la. Afinal, Richard era um homem rico, belo, atraente, brilhante... Certamente poderia ter quantas mulheres quisesse. Por que se interessaria por ela?
A campainha soou, interrompendo-lhe os pensamentos.
Kate suspirou, aborrecida. Fosse quem fosse que estivesse tocando, ela no se sentia com a menor disposio para receber visitas.
	Que pessoa mais insistente  Kate reclamou, quando a campainha soou pela terceira vez.
	Mame?  Jonathan retornava do quarto.  Voc no ouviu...
	J estou indo  Kate o interrompeu, a caminho da porta. Parou por um instante diante de um espelho de parede, para ajeitar os cabelos, que caam-lhe abaixo dos ombros.
	Ih, voc continua chata  Jonathan sentenciou, muito srio, voltando sobre os prprios passos.
Kate abriu a porta, pronta para dispensar o intruso o mais rpido que pudesse. Mas era Richard quem estava a sua frente, com uma expresso ansiosa nos olhos azuis.
 Ah, que bom encontr-la em casa! Posso entrar?
Kate voltou a cabea e contemplou a sala do apartamento. Havia apenas um jogo de sof, prximo  janela. A um canto, uma pilha de caixas de papelo... O telefone estava sobre um caixote, j que ela ainda no havia comprado uma mesinha adequada.
Richard repetiu a pergunta, num tom que denunciava um forte nervosismo. E s ento ela respondeu:
 Se voc no reparar na baguna... fique  vontade. Afastando-se Kate deu-lhe passagem.
Richard entrou e comeou a andar de um lado a outro. Kate no pde deixar de notar o quanto ele estava belo, usando cala caqui e camisa branca, de mangas arregaadas. Pelos botes entreabertos da camisa, ela podia ver-lhe a penugem morena do peito.
De sbito, Kate deu-se conta de seu prprio estado. Olhando para si, contemplou com tristeza o vestido de malha rosa-plido, solto e curto, que j no servia para sair... Apenas para ficar em casa.
 Voc est linda  disse Richard.
	Ora, no brinque  Kate protestou, enrubescendo.  Estou horrvel, isso sim.
	Voc sempre diz isso, quando eu a elogio.  Aproximando-se, Richard ergueu-lhe o queixo.  Por que age assim, Kate? No tem idia do quanto  bonita e atraente?
Essas palavras a pegaram de surpresa. E Kate sentiu o corao disparar.
 Voc no deve ter vindo at aqui s para me falar essas mentiras.  Ela tentava gracejar, para disfarar a tenso.
Richard sorriu, tornando a tarde de vero ainda mais luminosa. Depois, num tom excessivamente severo, declarou:
	Na verdade, vim at aqui porque fui escorraado da empresa e de minha prpria casa.
	Como?  Kate espantou-se.
	Meu amigo Chester, que trabalha comigo h muito anos, disse que nunca me achou to insuportvel, nem to neurtico.
Kate arregalou os olhos verdes.
	Mas por que ele disse isso?
	V se saber. E, o que  pior, minha prpria me concorda com ele.
	Sua... me?  Kate repetiu, perplexa.
	Isso mesmo.
Kate percebeu um sorriso maroto se insinuando nos lbios daquele homem. Desconfiada, indagou:
 Voc est falando srio... Ou no?
Richard fitou-a com intensidade. Ento tomou-lhe ambas as mos entre as suas. Parecia embaraado e temeroso.
	O que h?  Kate perguntou.  No estou entendendo voc, Richard.
	O fato  que estou com medo.
	Do qu?
 Do que preciso lhe dizer.
Kate continuava confusa.
 Fale de uma vez, Richard. Se tem algo a reclamar, ou...
 Tenho algo a pedir  ele a interrompeu.
Kate sorriu:
 Ora, pea-me o que quiser. Voc sabe que nunca lhe negarei nada.
Ele suspirou profundamente.
	Estou tentando brincar, por que no sei como dizer...
	Fale, simplesmente  Kate o encorajou.
	Eu te amo.
	O qu?
	Eu te amo, Kate Burnett. Tenho estado intratvel, desde o dia em que voc deixou meu apartamento, levando minha alegria, meu motivo para viver.
	Richard!  ela exclamou, com a voz carregada de emoo.  Voc realmente... me ama?
	Sim, Kate. Achei que, depois de Stacy, eu jamais me ligaria a outra pessoa. Mas ento aconteceu um milagre. Voc surgiu em minha vida e provou-me que ainda  possvel lutar pela felicidade.
Kate quis dizer algo, mas tudo o que conseguiu foi atirar-se nos braos de Richard.
Um longo beijo selou aquele momento. E quando os lbios por fim se afastaram, Kate declarou:
	Eu tambm te amo, Richard MacNeal, como jamais amei ningum. Apenas, no achava possvel que meus sentimentos fossem correspondidos.
	Como no?  ele indagou, baixinho.  O beijo que trocamos, naquela noite, no lhe mostrou o quanto eu a quero?
 Achei que voc se sentia atrado por mim. Mas nunca imaginei que pudesse me amar. Afinal, voc  to belo, inteligente, brilhante...
	E voc  a mulher mais fantstica do mundo, Kate Burnett. Voc me trouxe de volta  vida.
	No, senhor. Foi voc quem me trouxe, lembra-se?
	Amigo!  A voz do pequeno Jonathan soava cheia de alegria.
No momento seguinte, o garotinho saltava para o colo de Richard.
Kate contemplou a cena, com os olhos rasos de lgrimas da mais pura alegria.
No final daquela tarde, Alice recebeu um telefonema do pequeno Jonathan.
	Alice,  voc?
	Sim, querido.
	Liguei para pedir um favor.
	Fale, meu anjo.
	Voc pode vir me buscar?
	Agora?
	Sim.  E o garotinho explicou.  Richard est aqui e mame tambm. Os dois ficam se olhando com cara de bobos e depois se beijam, que nem aqueles namorados dos filmes, sabe? Esse negcio j est me cansando. Chamei Richard para jogar, mas ele no quis. Mame tambm no...
	J entendi, querido  Alice apartou.  Estou indo para a.
	Puxa, que bom!
Ao sair do apartamento, Alice levava na bolsa um bilhete que tinha acabado de escrever:

Queridos Richard e Kate,
Estou levando Jonathan para passar a noite comigo.
Aproveito para dizer que estou feliz por v-los finalmente vivendo a paixo que habita seus coraes. Vocs demoraram, hein, crianas?
Um beijo da mame Alice.

MARTHA SHIELDS cresceu contando estrias para a irm, como passatempo durante as longas viagens at a casa de seus avs. E como ela sabia dar vida aos personagens, e no conseguia deixar de sonhar com eles, resolveu contar suas estrias para uma audincia maior... Martha mora em Memphis, no Estado do Tennessee.  formada em Jornalismo e trabalha numa universidade local, tambm como desenhista grfica.
